Quase ninguém descobre a invasão pelo painel do site. Descobre por um cliente que manda um print com a tela vermelha do Chrome, por um resultado no Google com título em japonês ou por um e-mail do Search Console que ficou dias sem ser aberto. A partir daí, a pergunta é sempre a mesma: o que fazer agora, e em que ordem.
As listas que circulam respondem bem a parte técnica: trocar senhas, restaurar backup, remover o código malicioso, atualizar plugins. Este guia cobre essa parte, mas acrescenta o que pesa no negócio: quanto tempo o aviso de site perigoso continua no ar depois da limpeza, por que pedir a revisão cedo demais atrasa tudo, por que atualizar não basta e quando a invasão vira uma obrigação legal com prazo de dias úteis.
O que fazer primeiro quando o site é hackeado?
A primeira hora decide quanto a invasão vai custar. O objetivo não é limpar tudo de uma vez, e sim conter o dano, preservar as provas e recuperar o controle dos acessos. Limpeza apressada, feita antes de entender o que aconteceu, costuma apagar a pista de como o invasor entrou, e ele volta pela mesma porta.
- Tire o site do ar ou coloque em manutenção, se ele estiver redirecionando visitantes, servindo arquivos para download ou pedindo dados. Proteger quem visita vem antes do tráfego.
- Faça uma cópia do estado atual (arquivos e banco de dados) antes de mexer. Ela é a evidência de como a invasão aconteceu e, se houver dado pessoal envolvido, sustenta a avaliação que a lei exige.
- Troque todas as senhas: painel do site, hospedagem, FTP/SFTP, banco de dados, e-mail do domínio e registro do domínio. Faça isso de um computador que você sabe que está limpo.
- Revise quem tem acesso de administrador e remova contas que você não reconhece. Usuário criado pelo invasor é uma das formas mais comuns de ele voltar.
- Avise a hospedagem. Ela pode ter registros de acesso que você não enxerga e, em servidor compartilhado, outros sites podem estar no mesmo problema.
- Abra o relatório Problemas de segurança do Search Console para ver o que o Google já detectou. Se o site ainda não está verificado lá, verifique agora: sem isso, não há como pedir a revisão depois.
Só depois desses seis passos começa a limpeza propriamente dita. A ordem importa: quem restaura o backup antes de trocar as senhas entrega ao invasor um site limpo com a mesma chave na porta.
Como saber se o seu site foi hackeado?
Nem toda invasão derruba o site. As mais rentáveis para o invasor são justamente as silenciosas, que usam o seu domínio para empurrar spam ou redirecionar parte dos visitantes sem que o dono perceba. Os sinais mais frequentes são:
- aviso de página perigosa ou enganosa no navegador, ou um aviso junto ao site nos resultados da pesquisa;
- páginas que você não criou aparecendo no Google, muitas vezes em outro idioma ou vendendo produtos que nada têm a ver com o seu negócio;
- visitantes relatando redirecionamento para outro site, sobretudo quando chegam pelo Google ou pelo celular;
- usuários administradores desconhecidos, arquivos novos no servidor ou alterações em arquivos que ninguém da equipe tocou;
- queda brusca de tráfego orgânico ou mensagem do Search Console sobre problema de segurança.
Um detalhe engana muitos donos de site: o invasor costuma mostrar o conteúdo malicioso só para quem vem do Google ou só para o robô de busca. A ajuda do Search Console explica que hackers usam técnicas de cloaking para esconder o spam do proprietário e recomenda inspecionar as páginas com a ferramenta de inspeção de URL ou com cURL simulando a origem do clique, em vez de abrir a página no navegador (relatório de problemas de segurança, Google Search Console). Por isso, "abri o site e está normal" não prova nada.
Que tipo de invasão é a sua: spam, malware ou phishing?
O Google separa os problemas de segurança em três famílias, e cada uma pede uma limpeza e um tempo de revisão diferentes. Saber em qual delas o seu caso se encaixa é o que permite estimar quanto tempo o site vai ficar marcado.
| Tipo | O que acontece no site | O que o visitante percebe | Tempo de revisão citado pelo Google |
|---|---|---|---|
| Conteúdo invadido (spam) | Páginas, textos ou links injetados para promover outros sites | Resultados estranhos na pesquisa; às vezes nada | Várias semanas |
| Malware ou software indesejado | Código que tenta instalar programa nocivo ou redireciona para ele | Tela de aviso de site perigoso no navegador | Alguns dias |
| Engenharia social (phishing) | Página que imita outra marca ou pede senha, cartão ou dados | Aviso de site enganoso no navegador | Cerca de um dia |
Categorias do relatório Problemas de segurança (Google Search Console) e tempos do guia "Solicitar uma análise" (Google, web.dev)
Um site pode ter mais de um tipo ao mesmo tempo. A ajuda do Search Console lembra que o site pode estar infectado por mais de um tipo de malware e que a lista de URLs do relatório é só uma amostra: não é necessariamente completa. Limpar apenas as páginas listadas é o caminho mais curto para um pedido de revisão negado.
Por que o aviso de site perigoso não sai quando você limpa o site?
Porque a marcação não é retirada sozinha no momento em que o código malicioso some. Ela sai depois que o dono do site pede uma revisão no relatório Problemas de segurança e o Google confirma que o problema foi resolvido. Até lá, a tela de aviso continua afastando visitantes, e cada dia de marcação é tráfego, venda e confiança perdidos.
O mesmo guia faz um alerta que muda a estratégia: solicitar uma análise com o problema ainda presente apenas prolonga o período em que o site fica sinalizado como perigoso. A ajuda do Search Console vai além e diz que reenviar pedidos sem corrigir o problema pode alongar a resposta seguinte e até marcar o site como infrator reincidente. A pressa de tirar o aviso é compreensível, mas um pedido negado custa mais tempo do que dois dias a mais de limpeza bem feita.
Como limpar o site sem apagar as provas nem reinfectar?
Com a cópia de evidência guardada e as senhas trocadas, a limpeza segue uma lógica simples: descobrir por onde o invasor entrou, fechar essa porta e só então devolver o site ao ar. Inverter a ordem é o motivo mais comum de reinfecção.
1. Descubra a porta de entrada
Compare os arquivos atuais com uma versão conhecida e limpa, procure arquivos modificados recentemente e cruze as datas com os registros de acesso da hospedagem. Em sites WordPress, a porta costuma ser um plugin ou tema vulnerável, uma senha fraca ou reaproveitada, ou um acesso de terceiro que nunca foi revogado.
2. Restaure de um backup anterior à invasão, se ele existir
Backup só ajuda se for de antes da invasão e se estiver fora do alcance de quem invadiu. Uma cópia guardada no mesmo servidor pode ter sido alterada junto com o site. Se esse ponto ainda é frágil na sua operação, vale ler sobre a cópia de backup que o ataque também alcança.
3. Sem backup confiável, reconstrua em vez de remendar
Reinstale o núcleo da plataforma, os temas e os plugins a partir das fontes oficiais, e reaproveite só o conteúdo (textos, imagens, banco de dados) depois de revisado. Remendar arquivo por arquivo deixa para trás portas dos fundos escondidas em lugares que ninguém olha.
4. Feche a vulnerabilidade antes de voltar ao ar
Atualize ou substitua o componente vulnerável, remova plugins e temas que não estão em uso, ative autenticação em duas etapas onde a plataforma permitir e revise as permissões de quem administra o site. O pedido de revisão do Google pede justamente isso: explicar como o site foi limpo e qual falha foi corrigida.
5. Confira como o Google enxerga as páginas
O guia do Google recomenda checar a página inicial e uma URL que foi modificada pelo hacker com wget ou cURL, e lembra que o Googlebot precisa conseguir rastrear essas páginas: se elas estiverem bloqueadas por robots.txt ou por noindex, o Google não tem como confirmar que estão limpas.
Como pedir a revisão no Search Console do jeito certo?
O pedido é feito no próprio relatório Problemas de segurança, pelo botão de solicitar revisão, e só deve sair quando todos os problemas listados estiverem corrigidos em todas as páginas. A ajuda do Search Console diz que corrigir só algumas páginas não ajuda a voltar parcialmente aos resultados.
- Explique exatamente o problema que o site tinha, usando as categorias que aparecem no relatório.
- Descreva o que foi feito para cada categoria: o que foi removido e qual falha foi fechada. O Google dá como exemplo de explicação a remoção do spam injetado e a atualização de um plugin desatualizado.
- Documente o resultado: páginas verificadas, componentes atualizados, acessos revogados.
- Envie um único pedido e espere a decisão. O Google confirma o recebimento por e-mail e avisa de novo quando a revisão termina.
Se o pedido for negado, o relatório pode trazer novos exemplos de URLs infectadas. Use-os como ponto de partida para uma segunda rodada de limpeza, que deve ser mais ampla que a primeira, e não como lista fechada do que falta corrigir.
Limpar o site tira o invasor. Só a revisão aprovada tira o aviso.
Por que atualizar os plugins não basta?
"Mantenha tudo atualizado" aparece em todo guia sobre site hackeado, e continua certo. O problema é que a atualização depende de duas coisas que o dono do site não controla: o desenvolvedor publicar a correção e o site instalá-la antes que alguém explore a falha. Os números do ecossistema WordPress mostram que essa janela é curta e, em quase metade dos casos, nem chega a abrir.
O mesmo relatório registra que o núcleo do WordPress teve só seis vulnerabilidades reportadas no ano, todas de baixa prioridade. O risco mora nos componentes acrescentados ao site. Na prática, isso leva a três cuidados que vão além de clicar em "atualizar":
- Menos componentes: cada plugin instalado é uma porta a mais. O que não está em uso deve sair, não só ficar desativado.
- Componentes com manutenção ativa: plugin sem atualização há muito tempo ou de autor que sumiu é candidato a substituição.
- Proteção que não depende da correção: monitoramento de integridade de arquivos, firewall de aplicação e alerta de vulnerabilidade cobrem o intervalo em que a correção ainda não existe.
Para quem quer medir o risco antes do próximo incidente, um pentest com reteste das correções mostra o que de fato é explorável no site, em vez de uma lista genérica de boas práticas.
Quando a invasão vira assunto da LGPD?
Quando o site trata dados pessoais e a invasão pode tê-los atingido. Formulário de contato, cadastro de clientes, área logada, loja virtual e newsletter guardam nome, e-mail, telefone, endereço e às vezes senha e dado de pagamento. Se o invasor teve acesso a isso, o problema deixa de ser só técnico.
A obrigação não vale para todo incidente. Pelo texto da Resolução CD/ANPD nº 15/2024, a comunicação é devida quando o incidente pode acarretar risco ou dano relevante aos titulares: quando pode afetar significativamente seus interesses e direitos e, ao mesmo tempo, envolve ao menos um destes critérios: dados sensíveis; dados de crianças, adolescentes ou idosos; dados financeiros; dados de autenticação em sistemas, como logins e senhas; dados protegidos por sigilo; ou dados em larga escala. Um site invadido com base de clientes e senhas pode se encaixar com facilidade.
- O prazo conta do conhecimento: os três dias úteis começam quando o controlador sabe que o incidente afetou dados pessoais, não quando a limpeza termina.
- Agente de pequeno porte tem prazo em dobro, nos termos da própria resolução, que remete ao regulamento de agentes de tratamento de pequeno porte.
- O registro é obrigatório mesmo sem comunicação: o controlador deve guardar o registro do incidente por no mínimo cinco anos, inclusive dos que não foram comunicados, com a avaliação de risco e os motivos de não comunicar.
- A comunicação ao titular deve usar linguagem simples e ser direta e individualizada quando for possível identificar as pessoas afetadas.
É aqui que a cópia de evidência feita na primeira hora faz diferença: sem ela, fica difícil dizer quais dados foram expostos, desde quando e de quantas pessoas, que são exatamente as informações que a comunicação exige.
Quais erros prolongam o problema?
- Pedir a revisão do Google antes de terminar a limpeza. O próprio Google avisa que isso só prolonga a marcação.
- Limpar só as URLs de exemplo do relatório. A lista é uma amostra, e o invasor raramente deixa uma página só.
- Restaurar o backup sem fechar a falha. O site volta limpo e vulnerável, e a reinfecção chega em dias.
- Conferir o site só pelo navegador. Com cloaking, o dono vê a página normal enquanto o Google e os visitantes vindos da busca veem o spam.
- Esquecer as senhas fora do painel: FTP, banco de dados, hospedagem e o e-mail que recupera todas as outras.
- Tratar a LGPD como etapa final. O prazo de comunicação corre em paralelo com a limpeza, não depois dela.
- Não registrar nada. Sem anotação do que foi visto e feito, o pedido de revisão fica genérico e a avaliação de incidente fica sem base.
O que muda entre site institucional, loja virtual e WordPress?
O roteiro é o mesmo, mas o peso de cada etapa muda conforme o que o site guarda e de onde vem a receita.
| Tipo de site | Maior risco da invasão | Onde concentrar a atenção |
|---|---|---|
| Site institucional sem cadastro | Spam injetado e aviso no Google afastando contatos | Limpeza completa, revisão bem documentada, Search Console vigiado |
| Site com formulário ou área de cliente | Exposição de dados pessoais coletados | Evidência preservada e avaliação de incidente desde o primeiro dia |
| Loja virtual | Dados de pagamento e de clientes, venda parada durante o aviso | Isolar o checkout, avaliar dados financeiros e de autenticação, comunicar se houver risco relevante |
| Site em WordPress com muitos plugins | Reinfecção pela mesma falha de componente | Inventário de plugins, remoção do que sobra, monitoramento de vulnerabilidades |
| Site que recebeu clone ou página falsa | Clientes enganados em nome da marca | Denúncia da página falsa e aviso nos canais oficiais |
Quando o golpe envolve uma página falsa usando a sua marca, o problema conversa com o de phishing e do clique que vai acontecer: a defesa passa tanto pelo site quanto por avisar e orientar quem pode ser enganado.
Quanto custa deixar o site marcado como perigoso?
O custo mais visível é o tráfego que para na tela de aviso. Mas há outros que aparecem depois: campanhas pagas que levam para uma página bloqueada, e-mails de clientes perguntando se a empresa foi hackeada, a equipe comercial explicando o problema em vez de vender. Para o site de uma empresa B2B, que vive de credibilidade, o aviso vermelho comunica descuido antes de qualquer conversa.
É por isso que vale tratar a invasão também como um episódio de reputação. Uma nota curta nos canais oficiais, dizendo o que aconteceu, o que foi feito e o que o cliente deve observar, costuma conter mais boatos do que o silêncio. E, se houver dado pessoal envolvido com risco relevante, essa transparência deixa de ser opção e passa a ser regra.
Por onde começar hoje?
Se o site está invadido agora, siga a ordem: conter, copiar a evidência, trocar senhas, descobrir a porta, limpar, fechar a falha, conferir como o Google vê as páginas e só então pedir a revisão. Em paralelo, avalie se houve dado pessoal atingido, porque esse relógio corre em dias úteis.
Se o site não foi invadido, use este momento para fazer o que encurta qualquer incidente futuro: verificar o domínio no Search Console e cadastrar um e-mail que alguém de fato lê, ter backup fora do servidor, enxugar plugins e saber quem tem acesso de administrador. Esse é o trabalho que a área de Tech & Security da Alliance faz com os clientes, junto com o monitoramento do site.
E se a segurança do site é só uma das peças soltas da presença digital da empresa, o diagnóstico de marketing gratuito mostra em que ponto estão a tecnologia, os dados e os canais, e por onde vale começar.

