A pergunta costuma chegar depois de um susto: o relatório de dois anos atrás não abre mais nas análises detalhadas, o BigQuery parou de receber a tabela do dia, ou a equipe de dados avisa que acabaram as dimensões personalizadas. Alguém sugere o Google Analytics 360 e a conversa pula direto para o preço, que o Google não divulga.
Este artigo faz o caminho inverso. Primeiro, o que o 360 é de fato e quais tetos do GA4 gratuito importam para uma empresa média. Depois, o que acontece na prática quando a propriedade bate em cada um deles, como conferir em poucos minutos se a sua já está perto, e quais saídas existem antes de assinar um contrato.
O que é o Google Analytics 360?
O Google Analytics 360 é o nível de serviço pago das propriedades do Google Analytics 4. Não é outro software: é a mesma interface, os mesmos relatórios e o mesmo modelo de eventos, com limites mais altos de coleta, de relatórios, de retenção e de exportação para o BigQuery. A própria Ajuda do Google descreve o produto assim, como limites maiores sobre a mesma base.
Na prática, a mudança acontece por propriedade. Uma conta pode ter algumas propriedades no 360 e outras no padrão. O upgrade é feito pelo administrador do faturamento ou da organização no Google Marketing Platform, desde que exista um pedido ativo do 360, ou pelo parceiro de vendas que vendeu a licença. Segundo o Google, o upgrade pode levar até quatro horas para valer.
Além dos limites, o 360 traz o que a página do produto chama de suporte de nível empresarial e acordos de nível de serviço sobre várias funções, da coleta ao processamento. E libera recursos que não existem no gratuito, como subpropriedades e propriedades de visualização completa (o antigo roll-up), que veremos adiante.
Qual a diferença entre o GA4 gratuito e o Google Analytics 360?
A diferença é de grau, não de natureza. Quase tudo que existe no 360 existe no padrão, só que com teto mais baixo. O quadro oficial do Google lista os limites lado a lado, e a tabela abaixo reúne os que mais aparecem na rotina de uma empresa que já mede com algum cuidado.
| Recurso | GA4 padrão (gratuito) | Google Analytics 360 |
|---|---|---|
| Retenção de dados de eventos | Até 14 meses (opções de 2 e 14) | Até 50 meses (2, 14, 26, 38 ou 50) |
| BigQuery: exportação diária | 1 milhão de eventos por dia | Bilhões de eventos por dia |
| BigQuery: exportação contínua | Ilimitada | Ilimitada |
| Dimensões personalizadas de evento | 50 | 125 |
| Métricas personalizadas de evento | 50 | 125 |
| Parâmetros por evento | 25 | 100 |
| Eventos principais | 30 | 50 |
| Públicos-alvo | 100 | 400 |
| Amostragem em Explorar | A partir de 10 milhões de eventos por consulta | Até 1 bilhão de eventos por consulta |
| Análises detalhadas sem amostragem | Indisponível | Disponível, com cota diária |
| Métricas calculadas | 5 | 50 |
| Cota da API de dados | 200 mil tokens por dia | 2 milhões de tokens por dia |
Google, Ajuda do Google Analytics, “[GA4] Google Analytics 360 (propriedades do Google Analytics 4)”, consultado em 12/10/2026.
Repare na linha da exportação contínua: ela é ilimitada nas duas versões. É um detalhe que muda a conta de muita empresa, porque o limite de 1 milhão vale só para a exportação diária em lote. Voltaremos a ele na seção das saídas.
Muitos comparativos que aparecem na busca ainda trazem números do Universal Analytics, aposentado pelo Google. Se a tabela que você está lendo fala em “hits”, “visualizações” ou “amostragem a partir de 500 mil sessões”, ela descreve outra ferramenta.
Quais limites do GA4 gratuito pesam numa empresa média?
Dos mais de quinze limites do quadro oficial, quatro costumam aparecer primeiro numa empresa de porte médio com site, campanhas e algum time de dados: retenção, exportação diária ao BigQuery, dimensões personalizadas e eventos principais. A amostragem entra quando a empresa tem muito tráfego e usa as análises detalhadas para cortes longos.
Os outros limites raramente incomodam antes desses. Uma empresa média dificilmente cria 100 públicos, 200 comparações salvas ou 500 análises detalhadas compartilhadas. E o teto de 25 parâmetros por evento é largo para quem desenhou os eventos com critério, como mostramos no artigo sobre eventos do GA4 que acompanham o lead até virar cliente.
Há também um limite que quase ninguém precisa temer: o de tamanho de propriedade. Pela classificação publicada pelo Google, uma propriedade só é considerada “grande” a partir de 25 bilhões de eventos em 31 dias. É um volume de grandes portais e aplicativos, não de uma empresa média. Mas vale saber o efeito: quando uma propriedade padrão vira grande, a retenção de eventos cai automaticamente para 2 meses.
O que acontece quando a propriedade passa de 1 milhão de eventos no BigQuery?
Este é o ponto que os comparativos costumam citar como número e não explicar como consequência. A exportação diária do GA4 para o BigQuery manda, uma vez por dia, a tabela completa de eventos do dia anterior. Na propriedade gratuita, essa exportação tem um teto.
Traduzindo: o problema não é um dia ruim. É a média. Quando a propriedade passa do limite de forma recorrente, o Google pausa a exportação diária, e os dias que ficaram de fora não voltam. A mesma página avisa que, se uma propriedade padrão exceder o limite de forma significativa, a pausa pode ser imediata.
Há um aviso antes. Editores e administradores da propriedade recebem um e-mail sempre que ela passa do limite diário, dizendo quando a exportação será pausada se nada for feito. O problema é que esse e-mail cai na caixa de quem configurou a propriedade anos atrás, muitas vezes uma agência antiga ou um funcionário que já saiu.
O que se perde é o dado bruto. Os relatórios do GA4 continuam funcionando, mas os painéis montados sobre o BigQuery (de atribuição, de receita por cliente, de cruzamento com o CRM) ficam com buracos. Quem usa o Looker Studio ligado ao BigQuery vê o gráfico cair a zero e, às vezes, demora a descobrir por quê.
Por que a retenção de 14 meses some com o comparativo de dois anos?
A retenção de dados define por quanto tempo o Google guarda os dados no nível do evento e do usuário antes de apagá-los. Na propriedade gratuita, as opções são 2 ou 14 meses. No 360, chegam a 50.
Duas consequências práticas saem daí. A primeira é tranquilizadora: o relatório padrão de aquisição, com o comparativo de um ano contra o outro, continua de pé. O que some é a análise detalhada: o funil personalizado, o segmento de quem comprou duas vezes, o cruzamento de campanha com página de entrada num período de dois anos. Se o intervalo pedido passar do prazo de retenção, a parte excedente simplesmente não aparece.
A segunda é a que mais dói: a retenção não é retroativa para trás. Se a propriedade ficou anos em 2 meses, mudar hoje para 14 só preserva o que ainda não foi apagado, ou seja, os dois últimos meses. O histórico perdido não volta, nem com upgrade para o 360.
Há ainda um detalhe que poucos leem até o fim: dados de idade, gênero e interesse ficam sempre em 2 meses, qualquer que seja a configuração. E a mudança de período leva 24 horas para ser aplicada, prazo em que ainda dá para desfazer.
Amostragem, dimensões personalizadas e eventos principais: quando viram problema?
Amostragem nas análises detalhadas
Quando uma consulta envolve mais eventos do que a cota da propriedade, o GA4 usa uma parte dos dados e projeta o resultado. Na propriedade padrão, a cota é de 10 milhões de eventos por consulta; no 360, de até 1 bilhão. O Google mostra a porcentagem usada no ícone de qualidade dos dados, como explica a página “Sobre a amostragem de dados”.
Para uma empresa média, a amostragem aparece quando alguém abre uma análise detalhada de um ano inteiro com vários segmentos. A saída mais barata costuma ser encurtar o período ou levar a pergunta para o BigQuery, onde o dado bruto não é amostrado.
Dimensões e métricas personalizadas
Cada parâmetro que a empresa quer ver nos relatórios (tipo de plano, origem do lead, categoria do produto) ocupa uma dimensão personalizada. São 50 de escopo de evento e 25 de escopo de usuário no padrão. O Google lembra que, ao bater o limite, é preciso esperar 48 horas depois de excluir uma dimensão para criar outra.
Na maioria das propriedades que chegam perto do teto, o problema não é falta de espaço, é desperdício: dimensão criada para um parâmetro que já é dimensão predefinida, dimensão de teste nunca apagada, ou dimensão de alta cardinalidade (um ID por sessão, um carimbo de hora) que o próprio Google desaconselha e que joga linhas para “(Outros)”.
Eventos principais
Os eventos principais (o que antes se chamava conversão) são 30 no padrão e 50 no 360. Quem marca como principal todo clique em botão chega rápido ao teto e, pior, polui a otimização de campanhas que usam esses eventos. Na maioria dos negócios, cinco a dez eventos principais bem escolhidos contam a história inteira.
Como conferir se a sua propriedade já está perto dos limites?
Antes de pedir cotação, faça o levantamento. Ele leva menos de meia hora e exige papel de editor na propriedade. O diagrama abaixo resume onde olhar e qual é o sinal de alerta de cada limite.
1. Retenção de dados
Em Administrador, abra Configurações de dados e depois Retenção de dados. Se estiver em 2 meses e a empresa compara períodos longos nas análises detalhadas, mude para 14 hoje. É a correção de maior efeito e custo zero.
2. Volume diário de eventos
No relatório de eventos, pegue a contagem total de eventos de um mês cheio e divida pelos dias. Olhe também o pico, que costuma coincidir com campanhas e datas sazonais. Média acima de 700 mil por dia já pede atenção se a empresa usa ou pretende usar o BigQuery.
3. Vínculo com o BigQuery
Em Administrador, em Vínculos de produtos, abra Vinculações do BigQuery. Veja se existe vínculo, se a exportação marcada é diária, contínua ou ambas, e quais eventos estão excluídos. Depois, confira no próprio BigQuery se há tabela para todos os dias dos últimos meses.
4. Dimensões e métricas personalizadas
Em Administrador, abra Definições personalizadas e clique em Informações de cota, no canto superior direito. A tela mostra quantas dimensões e métricas de cada escopo estão em uso. Liste as que ninguém consulta há meses.
5. Eventos principais e amostragem
Na lista de eventos principais, conte quantos estão marcados e quais realmente indicam receita. Por fim, abra a análise detalhada mais usada pela equipe com o período de sempre e veja se o ícone de qualidade dos dados mostra menos de 100% de amostra.
Quais saídas existem antes de contratar o 360?
Boa parte dos tetos do gratuito tem saída dentro do próprio gratuito. Elas não substituem o 360 para quem precisa de SLA ou de cinquenta meses de histórico nas análises, mas resolvem a maioria dos casos de empresa média.
- Ligar o BigQuery desde já. A exportação começa a partir da vinculação, então cada mês sem vínculo é um mês de dado bruto que não volta. No BigQuery, o histórico fica no seu projeto do Google Cloud e não depende da retenção configurada no GA4.
- Usar a exportação contínua quando o volume passa de 1 milhão. O teto vale só para a diária em lote; a contínua é ilimitada no padrão. O BigQuery cobra por armazenamento e por consulta, e a exportação exige forma de pagamento válida no Google Cloud.
- Filtrar o que vai para o BigQuery. A própria Ajuda do Google recomenda excluir fluxos de dados e eventos da exportação para caber no limite diário. Eventos automáticos de rolagem ou de interação que ninguém analisa costumam ser os primeiros candidatos.
- Subir a retenção para 14 meses. Não custa nada e protege a análise de um ano contra o outro nas análises detalhadas.
- Enxugar dimensões personalizadas e eventos principais. Apagar o que não é usado e trocar parâmetros de alta cardinalidade por recursos próprios, como o User-ID, libera cota sem pagar nada.
- Mover análise pesada para fora da interface. Cruzamentos longos e cortes muito segmentados rodam melhor no BigQuery, sem amostragem, e podem alimentar painéis no Looker Studio.
O Looker Studio tem os próprios limites quando ligado ao conector nativo do GA4, que tratamos no artigo sobre onde o Looker Studio gratuito trava. Ligá-lo ao BigQuery em vez do conector direto costuma resolver os dois problemas de uma vez.
Quanto custa o Google Analytics 360 e como funciona a licença?
O Google não publica tabela de preços do Analytics 360. A página do produto no Google Marketing Platform não traz valor algum e encaminha para o contato com vendas. Números que circulam em artigos de terceiros são estimativas de mercado, não preço oficial, e por isso não os reproduzimos aqui.
O que a documentação oficial deixa claro é a lógica do contrato. A licença é contratada diretamente com o Google ou por meio de um parceiro de vendas, e o custo está ligado ao volume de eventos: a página de criação de subpropriedades informa, por exemplo, que cada evento numa subpropriedade custa metade de um evento na propriedade de origem, de acordo com os termos do contrato.
Outro ponto do quadro oficial: fazer o upgrade de uma propriedade para o 360 não altera o faturamento até a conta ser migrada para um contrato do Analytics 360, e os SLAs só valem a partir desse contrato. No caminho inverso, o downgrade é imediato, e a propriedade precisa se ajustar aos limites do padrão antes de criar novos objetos.
Subpropriedades e propriedades de visualização completa
São os dois recursos exclusivos que mais pesam na decisão de grupos com várias marcas ou regiões. A subpropriedade recebe uma parte dos dados de outra propriedade e permite, por exemplo, dar a cada região acesso só aos próprios números. A propriedade de visualização completa, nome que a versão em português dá ao roll-up, junta até 200 propriedades 360 numa visão única e elimina a duplicação do mesmo usuário entre elas, segundo a página “Sobre as propriedades de visualização completa”.
Quando o 360 se justifica, por tipo de negócio?
A decisão não sai do tamanho da empresa, e sim do que ela faz com o dado. A tabela abaixo cruza perfis comuns com o limite que costuma pesar e a saída mais provável.
| Perfil | Limite que costuma pesar | Saída mais provável |
|---|---|---|
| Empresa B2B com site institucional e geração de leads | Retenção em 2 meses; eventos principais em excesso | Gratuito bem configurado: retenção em 14 meses e 5 a 10 eventos principais |
| E-commerce médio com BigQuery | Exportação diária perto de 1 milhão de eventos | Exportação contínua e filtro de eventos; avaliar o 360 só se a diária completa for essencial |
| Grupo com várias marcas ou franquias | Visão consolidada e controle de acesso por unidade | 360, pelas propriedades de visualização completa e subpropriedades |
| Portal ou app de alto tráfego | Amostragem, cota de API e retenção | 360, pelos tetos de amostragem, API e retenção de até 50 meses |
| Empresa com área de dados e exigência de SLA | Prazo de processamento sem garantia contratual | 360, pelos acordos de nível de serviço e suporte |
Elaborado pela Alliance Comunicação a partir da Ajuda do Google Analytics (limites do 360, BigQuery Export, retenção e subpropriedades, 2026).
Note que três dos cinco perfis acabam no 360 por motivos que não são “mais espaço”: consolidação de várias propriedades, governança de acesso e garantia contratual. Quando o argumento é só “estamos perto do limite”, quase sempre há uma saída no gratuito.
Antes de perguntar quanto custa o 360, pergunte qual pergunta de negócio o gratuito não deixa responder.
Quais erros mais aparecem nessa decisão?
- Pedir cotação sem diagnóstico. Sem saber o volume diário de eventos e o uso de cota, não dá para comparar a proposta com as alternativas.
- Confiar em comparativo antigo. Tabelas do Universal Analytics citam limites que não existem mais e induzem a erro dos dois lados.
- Ignorar o e-mail de aviso do BigQuery. A pausa da exportação diária vem anunciada; o problema é ninguém ler.
- Ligar o BigQuery tarde. O dado bruto começa a ser guardado só depois do vínculo, e o 360 não recupera o que não foi exportado.
- Tratar o 360 como solução para medição ruim. Evento mal desenhado continua mal desenhado com teto maior.
Este último erro é o mais caro. Se a dúvida de fundo é o que medir, comece pelo artigo sobre o que medir de verdade no GA4 antes de discutir licença.
Por onde começar hoje
Abra a propriedade e cumpra três passos nesta ordem. Primeiro, retenção em 14 meses. Segundo, o levantamento do volume diário de eventos e do uso de cota de dimensões e eventos principais. Terceiro, a decisão sobre o BigQuery: se a empresa vai querer dado bruto em algum momento, o vínculo deveria existir desde já.
Com esse retrato na mão, a conversa sobre o 360 fica objetiva: ou existe um limite que nenhuma saída do gratuito resolve, ou a empresa precisa de consolidação, governança e SLA. Se quiser ajuda para fazer esse levantamento e desenhar a medição antes de decidir, a Alliance trabalha implantação e auditoria de Web Analytics, e o diagnóstico de marketing gratuito mostra onde a sua mensuração está no conjunto do marketing.

