Quase todo GA4 de empresa B2B conta a mesma história: um evento chamado algo como “envio_form_contato”, marcado como conversão, subindo e descendo no gráfico. Ele diz quantos formulários chegaram. Não diz quantos viraram reunião, quantos o comercial descartou nem quantos assinaram contrato.
O curioso é que o próprio Google já desenhou esse funil em seis eventos com nome pronto, e quase nenhum guia em português fala deles. Os tutoriais mais lidos ensinam a criar evento personalizado, justamente o tipo que a documentação manda deixar por último. Este texto faz o caminho inverso: explica os quatro tipos de evento, a ordem em que o Google pede para usá-los e como os eventos recomendados de geração de leads levam a medição do formulário até a venda.
O que é um evento no GA4?
Evento é a unidade de medida do Google Analytics 4. Cada coisa que acontece no site ou no app (uma página carregada, uma rolagem até o fim, um clique em link externo, um formulário enviado) chega ao GA4 como um evento com nome e, quase sempre, com parâmetros, que são os detalhes daquela ocorrência: o endereço da página, o texto do botão, o valor do pedido.
Essa lógica substituiu o modelo de sessões e visualizações de página do Universal Analytics, e é por isso que o GA4 parece vazio para quem chega procurando os relatórios antigos. No GA4, quase tudo depende de quais eventos você manda e com que nome. Se você ainda está na fase de decidir o que medir, o nosso guia sobre o que medir de verdade no Google Analytics 4 organiza essa decisão em quatro perguntas. Aqui o foco é o passo seguinte: escolher o tipo certo de evento para cada pergunta.
Quais são os quatro tipos de evento do GA4?
A Central de Ajuda do Google Analytics divide os eventos em quatro categorias. A diferença entre elas é quem dá o nome ao evento e quem faz o trabalho de enviá-lo.
| Tipo | Quem dá o nome | Quem envia | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Coletado automaticamente | A própria tag, sem configuração | first_visit, session_start, user_engagement | |
| Medição otimizada | A tag, se o interruptor estiver ativo | page_view, scroll, click, file_download, form_start, form_submit | |
| Recomendado | Google (nome e parâmetros prescritos) | Você, pela tag, pelo GTM ou pelo servidor | generate_lead, qualify_lead, purchase, sign_up |
| Personalizado | Você | Você | qualquer nome livre que você inventar |
Central de Ajuda do Google Analytics: “Sobre os eventos”, “Eventos coletados automaticamente”, “Medição otimizada” e “Eventos recomendados” (2026)
A coluna que mais pesa é a segunda. Enquanto o nome é do Google, o GA4 sabe o que o evento significa e consegue montar relatório em cima dele. Quando o nome é seu, o evento existe, mas a ferramenta não sabe o que fazer com ele.
Em que ordem o Google manda usar cada tipo?
A regra está escrita na mesma página da Central de Ajuda e funciona como uma escada: primeiro veja se o evento já é coletado automaticamente; depois, se a medição otimizada cobre; em seguida, se existe um evento recomendado para aquilo; e só no fim crie um personalizado. A razão é prática. Segundo o Google, os personalizados não aparecem na maioria dos relatórios padrão e exigem explorações ou relatórios montados à mão para serem lidos.
É aqui que boa parte do conteúdo disponível inverte a ordem. Ensinar a criar evento personalizado é mais fácil de explicar em tutorial, e por isso domina as buscas. Na prática, uma empresa que mede formulário com um nome inventado perde o relatório que o Google já preparou para esse caso, como veremos adiante.
Os degraus 1 e 2: o que o GA4 coleta sozinho
Dois grupos chegam sem que ninguém escreva código. Os coletados automaticamente incluem first_visit (primeira visita do usuário), session_start (início da sessão) e user_engagement (página em foco por pelo menos um segundo). Eles são a base das métricas de usuários, sessões e engajamento.
Os de medição otimizada dependem de um interruptor no fluxo de dados da web. Segundo a página de medição otimizada da Central de Ajuda, eles cobrem visualização de página (page_view), rolagem até 90% da página (scroll), clique em link que leva para outro domínio (click), download de arquivo (file_download), resultados de busca interna (view_search_results), vídeos incorporados (video_start, video_progress, video_complete) e formulários (form_start e form_submit).
Esses dois últimos parecem resolver a medição de lead, e é aí que mora a armadilha. O form_submit dispara no envio de qualquer formulário: contato, newsletter, busca, área do cliente. Ele traz parâmetros como form_id e form_name, mas a própria documentação avisa que esses parâmetros só aparecem nos relatórios se você criar dimensões personalizadas para eles. Sem isso, “formulários enviados” mistura o pedido de orçamento com o cadastro na newsletter.
O mesmo vale para o botão de WhatsApp. Um link para wa.me leva a outro domínio, então o clique tende a ser registrado como click, o evento genérico de saída, junto com o clique no Instagram e no LinkedIn do rodapé. Clique em WhatsApp é intenção, não lead; quem decide se virou lead é a conversa, e a conversa acontece fora do site.
Eventos recomendados são ações que o Google já nomeou e descreveu, mas que não envia sozinho, porque dependem de contexto que só a sua operação tem. A lista oficial de eventos recomendados se divide em quatro blocos: eventos para todas as propriedades (como login, sign_up, search e share), para vendas on-line (view_item, add_to_cart, begin_checkout, purchase), para jogos e para geração de leads.
A vantagem de usar o nome do Google é dupla. Primeiro, o evento entra nos relatórios que o GA4 já monta para aquele caso, sem exploração feita à mão. Segundo, cada recomendado vem com parâmetros prescritos, o que padroniza a coleta: o valor sempre se chama value, a moeda sempre se chama currency, e qualquer pessoa que pegue a conta depois entende o que está lá.
O que são eventos recomendados e quais servem para leads?
É o bloco que falta em quase todo guia sobre eventos do GA4, e o que mais interessa a quem vende por formulário, telefone e WhatsApp.
A própria página indica o bloco para vendas entre empresas, setor automotivo, seguros e negócios em geral, sobretudo quando a conversão acontece off-line. Traduzindo para a rotina de uma empresa B2B: o generate_lead é o formulário; o qualify_lead e o disqualify_lead são a triagem do comercial; o working_lead é o primeiro contato do vendedor; e o close_convert_lead e o close_unconvert_lead são o desfecho.
De onde vem o sinal de cada evento de lead: site ou CRM?
Este é o ponto que separa a teoria da implantação. O GA4 só conhece o que acontece no navegador. A qualificação, o contato do vendedor e o contrato assinado acontecem dentro do CRM, às vezes semanas depois da visita.
1. generate_lead: o site
Dispara quando o formulário certo é enviado com sucesso, idealmente na confirmação e não no clique do botão. Vai pela tag do Google ou pelo Gerenciador de Tags. Se a dúvida é qual dos dois usar, o post sobre quando o Google Tag Manager vale a pena e quando a tag do Google basta trata disso.
2. qualify_lead, disqualify_lead e working_lead: o CRM
São decisões de pessoas. Quando o comercial muda a etapa do lead no CRM, o sistema (ou uma automação ligada a ele) envia o evento correspondente ao GA4 pelo servidor, usando o Measurement Protocol. O disqualify_lead aceita o parâmetro disqualified_lead_reason, e o working_lead aceita lead_status, o que permite ler no GA4 o motivo do descarte por canal de origem.
3. close_convert_lead e close_unconvert_lead: o CRM, no fechamento
O close_convert_lead pode carregar o valor do contrato ou do primeiro pagamento; o close_unconvert_lead aceita unconvert_lead_reason, como “nunca respondeu”. É o par de eventos que transforma “o canal X gera muito formulário” em “o canal X gera cliente”, ou não.
Há uma condição técnica para tudo isso funcionar, e ela precisa ser resolvida no formulário, não no CRM. Pela documentação do Measurement Protocol, todo evento enviado pelo servidor precisa do client_id, o identificador do navegador que a tag do Google criou na visita. Se o formulário não grava esse identificador junto com o lead, o CRM não tem como dizer ao GA4 de quem é aquela venda.
Essa regra tem consequência direta para quem vende com ciclo longo. Um contrato fechado 40 dias depois do formulário chega ao GA4 com data recente, e a ligação com a sessão de origem pode não ser processada como esperado. Para devolver a venda à campanha que a gerou, o caminho mais firme costuma ser a importação de conversões offline no Google Ads a partir do CRM. No GA4, os eventos de fechamento servem melhor para enxergar taxas de passagem entre etapas por origem do que para atribuir receita ao clique.
Por que o nome e os parâmetros prescritos importam?
Porque o relatório depende deles. Um evento chamado “lead_qualificado” e outro chamado qualify_lead descrevem a mesma coisa para um humano, mas só o segundo é reconhecido pelo GA4 como parte do funil de leads. O mesmo vale para os parâmetros: a referência técnica dos eventos recomendados pede value e currency em quase todos os eventos de lead, com a moeda no padrão ISO 4217 (BRL para real). Se você informar value sem currency, as métricas de receita não são calculadas corretamente.
| Evento | Momento no funil | Parâmetros prescritos | Origem típica do sinal |
|---|---|---|---|
| generate_lead | Formulário enviado ou contato registrado | value, currency, lead_source (opcional) | Site (tag do Google ou GTM) |
| qualify_lead | Lead aprovado na triagem | value, currency | CRM, pelo servidor |
| disqualify_lead | Lead descartado | value, currency, disqualified_lead_reason (opcional) | CRM, pelo servidor |
| working_lead | Vendedor em contato | value, currency, lead_status (opcional) | CRM, pelo servidor |
| close_convert_lead | Virou cliente | value e currency opcionais, mas um exige o outro | CRM, pelo servidor |
| close_unconvert_lead | Encerrado sem venda | value, currency, unconvert_lead_reason (opcional) | CRM, pelo servidor |
Google for Developers, referência de eventos recomendados do GA4 (2026)
Um detalhe que muita implantação ignora: value em generate_lead não precisa ser o valor de uma venda. Pode ser um valor estimado por lead, calculado a partir da taxa histórica de fechamento e do tíquete médio. Ele serve para o GA4 comparar canais por valor e não só por volume, a mesma lógica de pontuar leads pelo que eles indicam de compra.
O que são parâmetros de eventos e quais os limites
Parâmetros são os campos que acompanham cada evento e dão contexto a ele. Alguns vêm de série (page_location, page_title), outros são prescritos pelos eventos recomendados e outros você pode acrescentar. Os limites de coleta do GA4 para propriedades padrão são estes: nome de evento com até 40 caracteres, até 25 parâmetros por evento, nome de parâmetro com até 40 caracteres e valor de parâmetro com até 100 caracteres, com exceções para page_title (300), page_referrer (420) e page_location (1.000).
Um parâmetro enviado não aparece sozinho nos relatórios. Para usá-lo como dimensão, é preciso registrá-lo como dimensão personalizada no Administrador. É o mesmo cuidado que vale para o form_id do form_submit, e o motivo pelo qual “mandei o parâmetro e ele não aparece” é uma das dúvidas mais comuns de quem começa.
O que são eventos principais e como eles se ligam aos de lead?
Evento principal é o nome que o GA4 dá ao evento que você marca como ação importante para o negócio. Segundo a página de eventos principais da Central de Ajuda, qualquer evento coletado pode ser marcado, até 30 por propriedade padrão (50 no Analytics 360). Já a conversão, no vocabulário do Google, passou a ser o que o Google Ads usa para lance: ela pode ser criada a partir de um evento principal compartilhado com o Ads.
No funil de leads, a pergunta é quais dos seis marcar. Uma escolha razoável para B2B é marcar generate_lead e close_convert_lead: o primeiro mede a entrada, o segundo mede o resultado. Marcar os seis como principais transforma o relatório num somatório de etapas que não se somam. Para marcar, basta ir em Administrador, Eventos, e clicar na estrela ao lado do evento, com função de editor ou superior.
Como criar eventos no GA4 na prática?
Há três caminhos, e o certo depende de onde o fato acontece.
- Pela interface, a partir de um evento existente. Em Administrador, Eventos, a opção “Criar evento” gera um evento novo a partir de condições sobre outro. O exemplo da própria documentação é criar um evento a partir do page_view de uma página de agradecimento. Dá para usar esse caminho para nomear o envio como generate_lead sem mexer no código do site.
- Pela tag do Google ou pelo Gerenciador de Tags. É o caminho para eventos do site que precisam de parâmetros, como o lead_source ou um value estimado. Também é onde se captura o client_id para gravar no formulário.
- Pelo servidor, com o Measurement Protocol. É o caminho dos cinco eventos que nascem no CRM. O Google descreve o protocolo como complemento da coleta pela tag, não substituto: ele precisa de uma propriedade já medida no site para funcionar.
Em qualquer dos três, confira o resultado antes de confiar no número. O relatório de tempo real mostra os eventos dos últimos 30 minutos, e o DebugView mostra evento por evento, com os parâmetros, para um navegador em modo de depuração.
Quais os erros mais comuns com eventos no GA4?
- Inventar nome para o que já tem nome. “envio_formulario”, “lead_site” e “contato_ok” fazem o trabalho do generate_lead sem os relatórios dele.
- Tratar form_submit como lead. Ele conta qualquer formulário, inclusive newsletter e busca, a menos que você filtre pelo identificador do formulário.
- Disparar o evento no clique do botão. Um envio com erro de validação vira lead no GA4 e não chega ao CRM. Dispare na confirmação.
- Não guardar o client_id no formulário. Sem ele, nenhum evento do CRM consegue voltar para a visita de origem.
- Mandar value sem currency. A referência técnica avisa que, sem a moeda, as métricas de receita não são calculadas corretamente.
- Esperar que o GA4 atribua a venda de 60 dias. O limite de 72 horas do Measurement Protocol não foi feito para ciclos longos.
- Marcar tudo como evento principal. O limite é 30, e um relatório com doze “conversões” não mostra prioridade nenhuma.
Como medir se os eventos de lead estão funcionando?
- Compare o total de generate_lead do mês com o número de leads que entraram no CRM pelo site. Uma diferença grande e persistente indica disparo duplicado, formulário sem evento ou lead que chega ao CRM sem passar pelo site.
- Confira se cada lead do CRM tem o client_id gravado. Esse é o percentual máximo de leads que você conseguirá acompanhar no GA4.
- Abra o DebugView e faça um envio de teste; depois mude a etapa desse lead de teste no CRM e veja o qualify_lead chegar.
- Leia a taxa de passagem por origem: de generate_lead para qualify_lead e de qualify_lead para close_convert_lead. É ali que aparece o canal que gera volume e não gera cliente.
- Leia os motivos de descarte (disqualified_lead_reason) por campanha. Motivo repetido em uma origem é ajuste de segmentação, não de vendas.
O percentual do item 1 é uma referência de bolso para iniciar a investigação, não uma regra do Google: o importante é que a diferença seja explicável.
O que muda para e-commerce, B2B e serviços locais?
| Tipo de negócio | Bloco de recomendados que importa | Evento principal típico | Onde está o resultado |
|---|---|---|---|
| E-commerce | Vendas on-line: view_item, add_to_cart, begin_checkout, purchase | purchase | No próprio site, no checkout |
| B2B com ciclo longo | Geração de leads, os seis eventos | generate_lead e close_convert_lead | No CRM, semanas depois |
| Serviço local (clínica, escritório) | Geração de leads, ao menos generate_lead e close_convert_lead | generate_lead | No WhatsApp e na agenda |
| SaaS e plataformas | Todas as propriedades: sign_up, login | sign_up | No produto, depois do cadastro |
O e-commerce tem a vida mais fácil, porque a venda acontece dentro do site e o purchase leva o valor real. Em todos os outros casos, o resultado está fora do site, e a qualidade da medição depende de quanto a operação comercial devolve ao GA4.
Por onde começar hoje
- Liste os eventos personalizados da sua propriedade e troque os que têm equivalente recomendado, começando pelo formulário de contato, que deve virar generate_lead.
- Garanta que o formulário grave o client_id junto com o lead, mesmo que a integração com o CRM ainda não exista.
- Combine com o comercial quais etapas do CRM equivalem a qualify_lead, working_lead e fechamento, e quais motivos de descarte serão usados.
- Escolha o caminho do sinal do CRM: GA4 pelo Measurement Protocol para ler o funil por origem, Google Ads por conversões offline para devolver a venda à campanha. Muitas empresas precisam dos dois.
- Marque como principais só o generate_lead e o close_convert_lead, e revise em 30 dias.
Se quiser um olhar de fora sobre o que sua medição já capta e onde ela perde o lead, o diagnóstico de marketing gratuito da Alliance avalia dados e mensuração junto com as outras frentes. E quando o trabalho é implantar o funil de eventos de ponta a ponta, do formulário ao CRM, é o que fazemos em Web Analytics.

