Quem pesquisa creator economy encontra, quase sempre, o mesmo roteiro: como virar criador, como monetizar um perfil, quais plataformas pagam melhor. Faz sentido, porque a maior parte do conteúdo sobre o tema é escrita para quem cria. Só que há um segundo lado do balcão, e é ele que decide quanto dinheiro circula nesse mercado: a empresa que compra.
Este texto fica desse segundo lado. Explica o que é a creator economy, separa o tamanho do mercado do tamanho da verba de marca (são números diferentes, e a confusão entre eles é comum), mostra o que a pesquisa mais recente do IAB nos Estados Unidos diz sobre como as marcas tratam o criador hoje e traduz isso em decisões práticas: de onde sai a verba, como escolher, como contratar e como medir.
O que é creator economy?
Creator economy, ou economia dos criadores, é o conjunto de negócios que gira em torno de pessoas que produzem conteúdo e transformam audiência em renda. O criador pode ser um youtuber de tecnologia, uma nutricionista que explica rótulos no Instagram, um engenheiro que escreve no LinkedIn ou um podcaster de nicho. O que todos têm em comum é uma audiência que confia neles o suficiente para dar atenção ao que recomendam.
Em volta dessas pessoas existe uma cadeia inteira: as plataformas onde publicam, as ferramentas que usam para produzir e editar, as agências e empresas de gestão de talentos, as plataformas de busca e contratação de criadores e, claro, as marcas que pagam para estar no conteúdo deles. Quando alguém fala em creator economy, pode estar falando de qualquer pedaço dessa cadeia, e é por isso que os números sobre o tema variam tanto.
Para uma empresa, a definição útil é mais estreita: a creator economy é um mercado de mídia em que a audiência pertence a pessoas, não a veículos. Em vez de comprar espaço numa revista ou num canal de TV, a marca compra a recomendação, a voz e o contexto de alguém que construiu a própria audiência.
Como funciona a creator economy?
Do lado de quem cria, a renda vem de várias fontes ao mesmo tempo. O próprio IAB, ao explicar o recorte da sua pesquisa, lista as receitas que não são publicidade: links de afiliado, assinaturas, gorjetas e venda de produtos próprios. Somam-se a isso os anúncios que aparecem junto ao conteúdo sem terem sido pensados para ele e, a fatia que interessa aqui, o dinheiro que as marcas investem diretamente em parcerias.
Do lado da marca, a compra costuma assumir três formas:
- Conteúdo patrocinado: o criador produz e publica, no próprio perfil, um conteúdo combinado com a marca, identificado como publicidade.
- Conteúdo patrocinado impulsionado: a marca paga mídia para levar esse conteúdo a mais gente, além da audiência orgânica do criador.
- Presença planejada no conteúdo do criador: a marca aparece de forma combinada em programas, séries ou formatos recorrentes do criador.
Essas três formas são exatamente o que o IAB conta como investimento publicitário em criadores. Afiliados, assinaturas e gorjetas ficam de fora da conta dele, porque não são verba que a marca decidiu, de propósito, colocar em um criador.
Qual a diferença entre creator economy e marketing de influência?
Os dois termos se misturam no dia a dia, mas não são a mesma coisa. Creator economy é o mercado inteiro; marketing de influência é uma das formas de a marca participar dele. Uma comparação ajuda a separar:
| Creator economy | Marketing de influência | |
|---|---|---|
| O que é | o mercado que se forma em torno de quem cria conteúdo | a estratégia da marca de usar criadores para se comunicar |
| Quem participa | criadores, plataformas, ferramentas, agências, marcas e audiência | a marca, os criadores contratados e quem gerencia a parceria |
| De onde vem o dinheiro | publicidade, afiliados, assinaturas, gorjetas, produtos próprios | da verba de marketing ou de mídia da empresa |
| Pergunta central | como esse mercado cresce e se organiza | qual criador, para qual objetivo, com que resultado |
| Para a empresa, serve para | entender o tamanho e a direção do canal | planejar, contratar e medir campanhas |
Elaboração Alliance Comunicação; fontes de receita do criador conforme a nota metodológica do IAB (EUA), 2025
Na prática, a empresa entra na creator economy fazendo marketing de influência. O que mudou nos últimos anos é a forma como isso é feito: de ação de oportunidade para linha de investimento com planejamento, como qualquer outro canal de mídia.
Quanto movimenta a creator economy?
Depende do que se está medindo, e é aqui que a maior parte dos textos sobre o tema se perde. Há estimativas que somam tudo o que o criador fatura, de qualquer fonte, mais a publicidade que aparece ao lado do conteúdo sem ter sido pensada para ele. E há a medição da verba que as marcas investem de propósito em criadores. A primeira dá números enormes; a segunda é a que interessa a quem decide orçamento.
O IAB, associação americana da indústria de publicidade digital, mede a segunda. Ele mesmo explica a diferença: outras estimativas usam o mercado total endereçável, que mistura receitas que não são publicidade com anúncios incidentais; a dele capta só o investimento deliberado das marcas.
Dois cuidados ao usar esse número. Primeiro, é um dado dos Estados Unidos, e não faz sentido convertê-lo para reais nem projetar uma proporção para o Brasil: o tamanho dos mercados, o preço da mídia e o comportamento de consumo são diferentes. Segundo, o valor de 2025 é projeção, não fechamento. O que o dado permite afirmar com segurança é a direção: a verba de marca em criadores cresce mais rápido do que a mídia em geral, num mercado grande e medido.
E as cifras globais de centenas de bilhões de dólares que aparecem em muitos artigos? Em geral vêm de estimativas de mercado total, citadas sem link nem método. Antes de usar qualquer uma delas numa apresentação, vale ir à origem e conferir o que exatamente foi somado.
Por que o criador deixou de ser tática de redes e virou canal de mídia?
Durante muito tempo, contratar criador era tarefa de quem cuidava das redes sociais da marca. A verba vinha do que sobrava, a escolha seguia o número de seguidores ou a afinidade de alguém do time, e o resultado era medido em curtidas. Funcionava como ação pontual: um lançamento, uma data comemorativa, uma campanha de fim de ano.
O relatório do IAB descreve outra coisa. Segundo ele, as marcas passaram a tratar criadores como um canal distinto, e não apenas uma tática dentro de redes sociais.
Compra obrigatória é linguagem de plano de mídia. Significa que, quando o anunciante distribui o orçamento do ano, o criador entra na lista do que não pode faltar, ao lado de busca paga e redes sociais. E canal de mídia traz junto as exigências de qualquer canal: objetivo definido, verba própria, critério de escolha que se explica e medição combinada antes de começar.
Usar a creator economy para se conectar com o público “não é mais experimental para o profissional de marketing: é essencial”, afirmou David Cohen, CEO do IAB, no lançamento do relatório.
Para que as marcas investem em criadores?
A imagem comum é a de que criador serve para dar visibilidade. Serve, mas não só. No mesmo levantamento do IAB, os objetivos mais citados pelas marcas em campanhas com criadores foram:
- construir reconhecimento de marca (43%);
- alcançar novos públicos (41%);
- fortalecer reputação e confiança na marca (35%);
- gerar vendas e conversões online (32%).
O quarto item é o que mais mudou a conversa. Venda aparecer entre os quatro objetivos principais indica que as marcas usam criadores ao longo do funil inteiro, e não apenas no topo. E a régua de cobrança acompanha: 40% dos compradores apontam o ROI geral como o principal KPI das campanhas com criadores, segundo o IAB.
Para a empresa, a lição é simples de enunciar e difícil de praticar: cada campanha precisa nascer com um desses objetivos escolhido, porque o critério de escolha do criador, o formato do conteúdo e a métrica de sucesso mudam conforme o objetivo. Reconhecimento pede alcance qualificado; venda pede rastreio de conversão; reputação pede leitura da conversa que o conteúdo gerou.
Como está a creator economy no Brasil?
O Brasil é um mercado relevante de criadores, mas não tem uma medição pública equivalente à do IAB americano para a verba que as marcas investem neles. A página pública do Digital AdSpend 2026, do IAB Brasil, também não traz essa linha separada, e por isso qualquer número de "quanto as marcas brasileiras gastam com criadores" que aparecer sem link e sem método deve ser lido com desconfiança.
O que existe de mais recente do lado da pesquisa é qualitativo. O estudo #Publi 2026, do IAB Brasil com a Offerwise, afirma na sua apresentação oficial que o marketing de influência no Brasil entrou em uma nova fase, em que contexto, vínculo e credencial passam a importar mais do que o número de seguidores. É a mesma direção do relatório americano: critério de escolha baseado em reputação e aderência, não em tamanho de perfil. Exploramos esse ponto em detalhe no artigo sobre por que o número de seguidores não é critério para escolher micro influenciadores.
Há também uma particularidade local que pesa na compra: a publicidade feita por criadores no Brasil está sujeita à autorregulamentação do Conar. Antes de assinar qualquer parceria, vale conhecer o que o Conar exige no marketing de influência, inclusive sobre identificação publicitária e sobre quem responde por ela.
Como uma empresa entra na creator economy?
Tratar criador como canal de mídia não exige verba de multinacional. Exige método. O caminho abaixo vale tanto para quem vai fazer o primeiro teste quanto para quem já contrata criadores e quer organizar a casa.
1. Defina o objetivo antes de pensar em nomes
Escolha um objetivo por campanha: reconhecimento, novos públicos, reputação ou venda. Escrever isso numa frase ("queremos que gestores de RH do interior paulista conheçam nossa plataforma") já elimina metade dos criadores possíveis e evita a escolha por afinidade pessoal.
2. Dê ao criador uma linha própria no orçamento
Enquanto o criador for pago com a sobra da verba de redes, ele será tratado como acessório. Uma linha própria no plano de mídia obriga a comparar o retorno dele com o dos outros canais e a decidir, com dado, se ele merece mais ou menos dinheiro no ciclo seguinte. Inclua nessa linha a eventual verba de impulsionamento do conteúdo, que costuma ser esquecida.
3. Escolha por reputação e aderência de audiência
São os dois critérios que as marcas mais citam no relatório do IAB, e por boa razão. Reputação é o que o criador já disse, com quem já trabalhou e como a audiência reage quando ele recomenda algo. Aderência é a coincidência entre quem segue o criador e quem a marca quer alcançar: idade, cidade, profissão, momento de vida. Peça as capturas do painel do perfil e confira os dados demográficos antes de fechar.
4. Contrate com escopo, uso do conteúdo e identificação
O contrato precisa dizer o que será entregue, em que formatos e datas, quantas revisões cabem, por quanto tempo e em que canais a marca pode reutilizar o conteúdo, se há exclusividade de categoria e como a publicidade será identificada. A identificação não é detalhe: além da exigência ética, é o que protege a confiança que a audiência tem no criador, que é exatamente o ativo que a marca está comprando.
5. Combine a medição antes de publicar
Links rastreáveis, cupons exclusivos, páginas de destino próprias e o acesso às métricas do conteúdo precisam estar acertados antes da publicação. Depois que o post sai, recuperar esses dados é difícil. Se o objetivo for venda, a medição de conversão é condição para a campanha existir; se for reconhecimento, defina o que será lido como alcance qualificado.
Qual o papel da IA na creator economy?
A inteligência artificial já está no processo de quem compra criador, mas como apoio operacional, não como substituta do criador. Segundo o IAB, quase três em cada quatro compradores de publicidade com criadores já usam ou planejam usar IA no próximo ano. Entre os que já usam, as aplicações mais citadas são edição de conteúdo (49%), elaboração de briefings para criadores (46%) e personalização de conteúdo (45%).
O mesmo levantamento mostra o limite: 95% dos anunciantes têm alguma preocupação com o uso de IA no marketing com criadores, e a principal é a perda da conexão humana. Não é um detalhe, porque experiências genuínas e próximas do público são, segundo as próprias marcas, o principal motivo para investir em criadores. A IA ajuda a organizar a busca, escrever o briefing e acelerar a edição; a recomendação continua valendo porque vem de uma pessoa.
Para a empresa, o uso sensato é na parte trabalhosa: triagem inicial de perfis, organização de dados de campanhas anteriores, rascunho de briefing a partir do objetivo. A decisão de escolha e a leitura da reputação do criador seguem sendo trabalho de gente, de preferência com quem conhece o nicho.
Quais os erros mais comuns de quem compra criador?
- Escolher pelo tamanho do perfil. Seguidores medem alcance potencial, não confiança nem aderência. Um perfil grande com público fora do alvo custa caro e entrega pouco.
- Contratar sem objetivo escrito. Sem objetivo, não há como escolher formato, criador nem métrica, e o resultado vira opinião.
- Medir só curtidas. Engajamento é sinal, não resultado. Se o objetivo era venda ou novos públicos, a métrica precisa refletir isso.
- Engessar o roteiro. O criador conhece a própria audiência melhor que a marca. Briefing com objetivo, mensagens-chave e limites funciona melhor que texto pronto para ler.
- Esquecer o uso do conteúdo no contrato. Reaproveitar o vídeo do criador em anúncio sem previsão contratual gera conflito e custo extra.
- Fazer uma ação e parar. Relação com criador rende mais na repetição, quando a audiência já associa a pessoa à marca. Ação isolada raramente permite medir alguma coisa.
- Usar número de mercado sem origem. Apresentar cifra global sem fonte para justificar verba é frágil; o dado do IAB tem recorte e método conhecidos.
O que muda por tipo de negócio?
A lógica de canal vale para todos, mas o perfil de criador, o objetivo dominante e a métrica mudam bastante conforme o negócio. A tabela abaixo resume o padrão que costuma funcionar, sem números de referência, porque eles variam demais entre setores para serem úteis fora do contexto:
| Tipo de negócio | Objetivo que costuma dominar | Criador que tende a funcionar | O que medir |
|---|---|---|---|
| B2B e serviços técnicos | reputação e novos públicos | especialistas do setor, executivos com voz própria | leads qualificados, visitas a páginas de produto, menções |
| E-commerce e varejo online | venda e conversão | criadores de nicho com público comprador | vendas por link ou cupom, custo por venda |
| Comércio e serviço local | reconhecimento na região | criadores conhecidos no bairro ou na cidade | visitas, agendamentos, uso de cupom |
| Marca nova ou lançamento | reconhecimento e novos públicos | carteira de vários criadores com papéis diferentes | alcance no público-alvo, buscas pela marca |
| Setor regulado (saúde, finanças) | reputação e confiança | profissionais com credencial verificável | qualidade da conversa, conformidade, leads |
Elaboração Alliance Comunicação
No B2B, vale lembrar que o criador mais valioso às vezes está dentro de casa. Executivos que publicam com consistência funcionam como canal próprio, com a vantagem da credencial, e esse caminho é tratado no artigo sobre marca pessoal de executivo e geração de pipeline.
Por onde começar hoje
Comece pelo diagnóstico do que já existe. Liste as parcerias com criadores dos últimos doze meses, de onde saiu o dinheiro de cada uma e qual resultado foi registrado. Em seguida, escolha um único objetivo para o próximo ciclo e reserve para ele uma linha própria no orçamento, mesmo que pequena. Com isso, a próxima contratação já nasce com critério de escolha, contrato e medição combinados.
Se o desafio for maior do que organizar parcerias, como entender onde o criador entra no conjunto do marketing da empresa, o diagnóstico gratuito de marketing da Alliance mostra a maturidade de cada frente, incluindo reputação e aquisição. E, para quem quer selecionar, contratar e gerir criadores e executivos como canal, o serviço de Influência & CEO Positioning faz esse trabalho do critério de escolha à medição.

