Positivação é um dos indicadores mais citados em reunião comercial e um dos mais mal lidos. O número sai do sistema de pedidos, cabe em um slide e sobe quando o time de vendas faz o trabalho de visita. Por isso costuma ser comemorado sem perguntas.
Este artigo olha a métrica pelo lado do trade marketing: como calcular sem errar a fórmula, qual base usar, como ela se relaciona com a distribuição numérica e a ponderada, e o que precisa acontecer depois que o PDV comprou para o produto não ficar parado no depósito da loja.
O que é positivação?
Positivação é a proporção de clientes de uma base que fizeram ao menos uma compra em um período definido. Na indústria e na distribuição, o cliente é o ponto de venda: o supermercado, a farmácia, o bar, a loja de material de construção. Um PDV "positivado" no mês é um PDV que emitiu pelo menos um pedido no mês.
O termo vem do vocabulário de força de vendas, e é por isso que os materiais mais lidos sobre o assunto são de empresas de software comercial. Para o vendedor, positivar é converter a visita em pedido. Para o trade marketing, é só o primeiro degrau: o produto entrou na loja, mas ainda não chegou à mão do shopper.
A métrica existe em duas versões que convém separar desde o início. A positivação de clientes conta quantos PDVs compraram qualquer item. A positivação de produtos conta, para cada item ou família, em quantos PDVs ele entrou. A segunda é a que interessa a quem cuida de lançamento e de mix.
Como calcular a positivação de clientes?
A fórmula é simples: positivação = (clientes que compraram no período ÷ clientes da base) × 100. Se 400 lojas de uma carteira de 500 fizeram pedido em outubro, a positivação de outubro foi de 80%.
Há material na internet que apresenta a conta invertida, dividindo contatos por vendas. Isso mede outra coisa, algo próximo de quantas abordagens foram precisas para cada pedido. Não diz que fatia da carteira comprou, que é a pergunta que a positivação responde.
Três decisões precisam ser tomadas antes de rodar o número, e quase ninguém as escreve:
1. O período
Mês é o padrão, mas o período tem de acompanhar o ciclo de compra do canal. Um bar que compra toda semana e um atacarejo que compra a cada 45 dias não cabem na mesma régua mensal. Fixe o período por canal e não mude no meio do ano.
2. O que conta como compra
Pedido emitido, nota faturada ou mercadoria entregue? A diferença aparece quando há corte de pedido por falta de estoque. Um PDV que pediu e não recebeu não está positivado do ponto de vista da gôndola, mesmo que esteja no relatório do vendedor.
3. Quem está na base
É a decisão que mais distorce o número, e por isso tem seção própria logo abaixo. Uma base enxuta produz positivação alta; uma base ampla produz positivação baixa. O mesmo mês de vendas pode render 80% ou menos de 1%.
Qual base usar: a carteira do vendedor ou o universo de PDVs?
A carteira ativa é o conjunto de clientes que a empresa considera seus: em geral, quem comprou nos últimos três, seis ou doze meses, conforme a regra interna. É uma base útil para medir o trabalho do vendedor, porque ele responde por ela. Mas é uma base que a própria empresa escolhe, e que encolhe quando o cliente para de comprar.
O universo é o total de pontos de venda do canal em que o produto poderia estar. Ele não depende da carteira e mostra o tamanho do mercado que ainda não foi alcançado. Para o varejo alimentar de autosserviço, há um número público para isso.
Com esse número, a conta muda de figura. As 400 lojas positivadas do exemplo são 80% de uma carteira de 500 e cerca de 0,09% das 424.120 lojas do autosserviço. Nenhuma das duas leituras está errada. Elas respondem perguntas diferentes: a primeira diz se o vendedor cuida bem de quem já é cliente; a segunda diz quanto do mercado a marca ainda não toca.
Na prática, o universo inteiro raramente é a base certa. Uma marca regional não compete nas 424 mil lojas; uma marca de nicho não está em todo formato. O caminho é recortar o universo pelo canal, pela região e pelo formato em que a marca quer estar, e acompanhar as duas positivações lado a lado: a da carteira e a do universo recortado.
Qual a diferença entre positivação e sell-out?
Positivação mede o sell-in: a venda da indústria ou do distribuidor para o varejista. O sell-out é a venda do varejista para o consumidor final. A primeira diz que o produto entrou na loja; a segunda diz que ele saiu pelo caixa.
Entre uma e outra há um trecho que nenhum dos dois números mostra: o produto precisa sair do depósito, ir para a gôndola, no lugar combinado, com preço visível e estoque que dure até a próxima entrega. É nesse trecho que mora o trabalho de trade marketing, e é nele que a positivação alta vira estoque parado.
| Positivação | Sell-out (giro) | |
|---|---|---|
| O que mede | Se o PDV comprou da indústria ou do distribuidor | Se o consumidor comprou do PDV |
| Quem compra | O varejista | O shopper |
| De onde sai o número | Pedidos e notas da própria empresa | Dado do varejo, painel ou auditoria de loja |
| Quando engana | Pedido empurrado que fica no depósito | Loja vende bem, mas a carteira é pequena |
| Quem responde | Força de vendas | Trade marketing, junto com o varejo |
Quadro elaborado pela Alliance Comunicação a partir da prática de gestão de canais.
A leitura útil cruza os dois. Positivação alta com sell-out fraco é sinal de produto que entrou e não girou: falta exposição, falta preço, falta ativação ou falta demanda. Positivação baixa com sell-out forte nas lojas onde está é sinal do contrário: o produto vende, o problema é chegar em mais lojas. O post sobre sell-out e o benchmark que falta nos relatórios de trade mostra como ler o giro contra o crescimento do varejo.
O que é positivação de produtos?
É a mesma conta feita item a item: em quantos PDVs da base cada produto, ou cada família, entrou no período. Uma loja pode estar positivada como cliente e ter comprado só o item carro-chefe. Para o trade, ela continua sem o lançamento.
Por isso, a positivação de cliente esconde o mix. Uma carteira com 80% de clientes positivados pode ter o lançamento do trimestre em 25% das lojas. Quem acompanha só o número agregado descobre isso tarde, quando o volume do lançamento não aparece no fechamento.
A forma prática de ler é uma matriz: PDVs nas linhas, itens ou famílias nas colunas, marcando quem comprou o quê. As colunas vazias mostram o item que não entrou; as linhas com um só item mostram a loja que compra pouco do portfólio. Cada vazio é uma pauta de visita.
Qual a diferença entre distribuição numérica e ponderada?
A distribuição numérica conta lojas: de todas as lojas de um mercado, quantas têm o produto. A distribuição ponderada pesa cada loja pelo que ela vende da categoria: uma loja grande, que vende muito daquela categoria, vale mais do que uma loja pequena que mal a trabalha.
Num artigo da NielsenIQ sobre otimização da distribuição, a empresa de pesquisa define a numérica como o total de lojas que têm o produto ou a categoria relevante e dá o exemplo de um produto vendido em 6 de 10 lojas de um mercado, ou 60%. A ponderada, no mesmo texto, considera o faturamento da categoria e mede a qualidade da distribuição.
O mesmo artigo propõe um índice de eficiência de distribuição: ponderada dividida por numérica, em que quanto maior o resultado, mais eficiente é a presença, e recomenda comparar com pelo menos duas marcas concorrentes. No exemplo do diagrama acima, a marca A está em mais lojas, mas nas que vendem pouco da categoria (eficiência 0,5); a marca B está em menos lojas, mas nas certas (eficiência 1,75).
A positivação de produto é, na essência, uma distribuição numérica calculada sobre a carteira. Falta a ela o peso. Se a sua empresa não tem dado de painel para calcular a ponderada, uma aproximação honesta é classificar a carteira por porte ou faturamento da loja na categoria e medir a positivação separadamente por faixa.
Positivar 80% da carteira com as lojas pequenas e deixar de fora as grandes é ter um número bonito e uma distribuição fraca.
Por que a positivação importa para o trade marketing?
Porque ela é o pré-requisito de todo o resto. Não existe ponta de gôndola, material de PDV ou degustação em loja que não comprou. Antes de discutir exposição, a pergunta é se o produto está fisicamente no ponto, e a positivação é a primeira resposta a essa pergunta.
Ela também é o primeiro sinal de lançamento. Nas primeiras semanas, o sell-out ainda é pequeno e ruidoso; a positivação do item mostra se a força de vendas está conseguindo abrir as lojas. Se o lançamento não positiva, a verba de ativação vai para lojas onde o produto não está.
E ela orienta a verba. Uma ação de trade planejada para 300 lojas precisa saber quais delas compraram o item e em que volume. Cruzar a lista de positivados com a lista de lojas da ação evita o desperdício mais comum do canal: material montado onde não há produto.
Como melhorar a positivação de clientes, e garantir que o PDV gire?
As listas de dicas mais comuns param no pedido: roteiro de visitas, mix sugerido, campanha de incentivo. Tudo isso ajuda a positivar. O que segue cobre também o trecho depois do pedido, que é onde a positivação vira venda.
1. Separe a carteira por faixa de importância
Classifique os PDVs pelo que vendem da categoria e defina metas de positivação por faixa. A meta para as lojas que concentram a venda deve ser mais alta, e a frequência de visita também. É a forma de trazer a lógica da distribuição ponderada para dentro da rotina comercial.
2. Defina um mix mínimo por formato de loja
Para cada formato, diga quais itens precisam estar presentes. A visita passa a ter um objetivo concreto: completar o mix daquele PDV, e não só tirar um pedido. A positivação de produto vira o indicador desse objetivo.
3. Confira a gôndola, não só o pedido
Inclua na visita a checagem de presença na área de venda, com foto datada. Produto comprado que não está exposto é o tipo de perda que o relatório de pedidos não mostra. O post sobre ruptura de estoque e quem perde a venda detalha como medir o produto que falta na gôndola mesmo estando na loja.
4. Negocie o espaço junto com o pedido
O primeiro pedido de um item é o melhor momento para combinar onde ele vai ficar. Se a loja trabalha com planograma, e com a distância entre o desenho e a gôndola real, o novo item precisa caber nele, com frentes suficientes para não romper antes da próxima entrega.
5. Ative onde o produto já está
Concentre a ativação nas lojas positivadas e com o produto exposto. Um ponto extra, como a ponta de gôndola e a conta para decidir quanto pagar por ela, rende quando há estoque para girar. Em loja não positivada, a mesma verba não tem o que vender.
6. Meça a recompra
A segunda compra do PDV é o melhor indicador indireto de giro que a indústria tem nos próprios dados. Uma loja que comprou uma vez e não voltou provavelmente ainda tem o produto parado. Acompanhe a positivação recorrente: PDVs que compraram em dois ou mais períodos seguidos.
Quais os erros mais comuns ao medir positivação?
- Mudar a base sem avisar. Limpar da carteira os clientes que pararam de comprar faz a positivação subir sem que nenhuma loja nova tenha comprado.
- Usar a fórmula invertida. Contatos divididos por vendas é taxa de conversão de esforço, não positivação.
- Ler o número agregado sem abrir por item. Cliente positivado não é produto positivado, e o lançamento se perde na média.
- Tratar toda loja como igual. Sem algum tipo de peso, 80% de positivação pode significar presença só nas lojas que menos vendem a categoria.
- Comemorar sem olhar o giro. Positivação alta com recompra baixa é estoque empurrado, que volta como pedido de desconto ou devolução.
- Comparar períodos de tamanhos diferentes. Um trimestre sempre terá positivação maior que um mês, porque há mais chances de compra no período.
Como medir se a positivação está virando venda?
Monte um painel curto que acompanhe o caminho inteiro, da base ao giro. Cada indicador responde por um trecho e aponta o responsável quando cai.
- Positivação da carteira, por canal e por faixa de importância da loja.
- Positivação do universo recortado, para saber quanto do mercado-alvo ainda não foi aberto.
- Positivação por item, com atenção especial aos lançamentos nas primeiras semanas.
- Presença na gôndola, conferida em campo, sobre as lojas positivadas.
- Positivação recorrente, a proporção de lojas que compraram em períodos seguidos.
- Sell-out, quando houver dado do varejo ou de painel, comparado ao crescimento da categoria.
Se não houver dado de sell-out, os itens 4 e 5 fazem o papel de sinal antecipado. Presença na gôndola mostra se o produto teve chance de girar; recompra mostra se girou.
O que muda por canal?
O conceito é o mesmo, mas a régua muda com o ciclo de compra e o tipo de loja. A tabela abaixo resume os ajustes mais frequentes.
| Canal | Período que costuma fazer sentido | O que olhar além do pedido |
|---|---|---|
| Supermercado e autosserviço | Mensal | Presença na gôndola, frentes e preço exposto |
| Atacarejo | Mais longo que o mensal, pelo volume por pedido | Giro do estoque comprado antes do próximo pedido |
| Farmácia | Mensal | Mix por formato de loja e exposição em área de autoatendimento |
| Bares e restaurantes | Semanal ou quinzenal | Recompra e presença no cardápio ou na geladeira |
| Material de construção | Mensal ou bimestral | Exposição do item e orientação do vendedor da loja |
Quadro elaborado pela Alliance Comunicação a partir da prática de trade marketing; ajuste o período ao ciclo de compra observado na sua carteira.
Em todos os canais, a pergunta de fundo é a mesma: o pedido virou produto exposto, e o produto exposto virou venda? Os materiais de comunicação na loja ajudam a fechar esse trecho, desde que o preço anunciado seja o praticado, como mostra o artigo sobre materiais de PDV publicado no blog.
Por onde começar hoje?
- Escreva a regra da sua base: quem entra na carteira ativa, por quanto tempo fica e o que conta como compra.
- Recorte o universo do seu canal e da sua região e calcule a positivação contra ele, ao lado da positivação da carteira.
- Abra a positivação por item e por faixa de importância da loja.
- Inclua a presença na gôndola na rotina de visita e cruze com a lista de positivados.
- Acompanhe a recompra como sinal de giro até ter dado de sell-out.
Esse caminho, do pedido à prateleira e ao caixa, é o trabalho do serviço de Experiência & Trade da Alliance: planejar a presença no PDV, executar e medir se ela vendeu. Se quiser saber em que ponto a sua empresa está em canais, mídia e dados, o diagnóstico de marketing gratuito leva cerca de 30 minutos e devolve um mapa das prioridades.

