Quase todo conteúdo sobre acessibilidade digital para no mesmo ponto: explica o conceito, lista os tipos de deficiência, lembra que existe lei e oferece um plugin. O gestor termina a leitura convencido de que o assunto importa e sem saber o que, no site dele, está quebrado.
Este artigo faz o caminho inverso. Parte do maior levantamento público sobre o tema, mostra quais falhas aparecem de fato nos sites, o que a lei brasileira diz com todas as letras (e o que ela ainda não diz) e separa o que o próprio time corrige do que pede desenvolvimento. Do diagnóstico à ação.
O que é acessibilidade digital?
Acessibilidade digital é a condição de um site, aplicativo ou documento poder ser percebido, entendido e operado por qualquer pessoa, inclusive quem tem deficiência visual, auditiva, motora ou cognitiva. Não é um recurso extra: é a diferença entre o conteúdo existir para todo mundo ou só para parte do público.
Na prática, isso significa coisas bem concretas. Uma pessoa cega navega com leitor de tela, que lê em voz alta o que está no código, e não o que está desenhado. Quem tem baixa visão precisa de contraste suficiente para distinguir texto e fundo. Quem não usa mouse percorre a página pela tecla Tab e precisa enxergar onde está o foco.
Também entram pessoas sem deficiência: quem lê o celular sob sol forte, quem está com o braço machucado, quem tem mais de 60 anos e aumentou a fonte do sistema. Site acessível costuma ser, simplesmente, site mais fácil de usar.
Como está a acessibilidade dos sites hoje?
Existe uma medição anual, pública e comparável que quase nenhum conteúdo em português usa: o WebAIM Million, da WebAIM, organização ligada à Universidade Estadual de Utah. Todo ano ela roda o mesmo teste automático nas home pages do milhão de sites mais influentes do mundo.
Duas leituras evitam que o número vire manchete errada. A primeira: o teste olha só a home page, e só o que uma ferramenta automática consegue detectar. A ausência de erro detectado não prova que a página seja acessível, porque boa parte dos critérios exige avaliação humana.
A segunda: a amostra é o milhão de sites mais influentes do mundo, e não uma amostra do Brasil. O retrato vale como piso. Se os sites mais influentes do planeta erram nessa proporção, a média do mercado dificilmente está melhor.
Quais são as seis falhas que quase todo site tem?
O achado mais útil do relatório não é o índice geral, é a concentração. Os erros não se espalham por dezenas de critérios técnicos: eles se repetem, nos mesmos seis pontos, ano após ano.
1. Texto com baixo contraste
Cinza claro sobre branco, branco sobre foto, texto sobre a cor da marca. É a falha mais frequente porque nasce no design, não no código: a paleta é aprovada no monitor calibrado da agência e reprova na tela do usuário. Explicamos os limites de contraste e onde eles quebram em o critério de contraste que reprova a paleta aprovada.
2. Imagem sem texto alternativo
O texto alternativo (o atributo alt) é o que o leitor de tela lê no lugar da imagem. Sem ele, a pessoa ouve o nome do arquivo ou nada. Vale principalmente para imagem que carrega informação: banner com oferta, gráfico, foto de produto, selo, botão desenhado como figura.
3. Campo de formulário sem rótulo
Formulário em que o nome do campo aparece só como texto de exemplo dentro da caixa, e some quando a pessoa começa a digitar. Para o leitor de tela, o campo não tem nome. Para a empresa, é o formulário de contato ou de orçamento, ou seja, o ponto onde o lead chega ou se perde.
4. Link vazio
Link que não tem texto que o descreva: normalmente um ícone (redes sociais, lupa, carrinho) ou uma imagem sem alt dentro do link. O leitor de tela anuncia "link" e mais nada, e a pessoa não sabe para onde vai.
5. Botão vazio
O mesmo problema, no botão: o X que fecha o pop-up, a seta do carrossel, o ícone do menu no celular. Para quem enxerga, o desenho basta. Para quem ouve a página, é um botão sem nome no caminho.
6. Idioma da página não declarado
Uma linha no código diz ao navegador em que língua a página está. Sem ela, o leitor de tela pode ler português com pronúncia de inglês, o que torna o texto quase incompreensível. É a correção mais barata da lista inteira.
Por que o site brasileiro sai pior que a média?
O relatório tem uma tabela por domínio de topo e outra por idioma da página. As duas colocam o Brasil acima da média geral de erros, e não por pouco.
O recorte é uma linha de tabela, não um estudo brasileiro, e ninguém mediu as causas. Mas a experiência de quem desenvolve e revisa site no país sugere hipóteses conhecidas: acessibilidade raramente entra no escopo contratado, o briefing de design não traz critério de contraste, e o site é entregue sem teste com teclado ou leitor de tela.
O resultado é previsível. Quando ninguém pede, ninguém entrega, e cada ajuste feito depois custa mais do que teria custado na primeira versão.
Mais código de acessibilidade resolve o problema?
Aqui está o dado mais contraintuitivo do relatório. ARIA é um conjunto de atributos criado justamente para dar ao leitor de tela informações que o HTML comum não dá: "isto é um menu", "este painel está aberto", "este botão fecha a janela". Seria de esperar que página com ARIA fosse mais acessível.
É uma associação, não uma prova de causa. Páginas com ARIA tendem a ser as mais complexas, com menus dinâmicos, carrosséis e janelas, e complexidade gera erro por si só. A lição, ainda assim, é clara: atributo técnico colocado sem entender o que ele faz não melhora nada, e pode piorar, porque passa ao leitor de tela uma informação errada com cara de certa.
A menção a código gerado por IA também merece atenção. Ferramenta que escreve interface rápido tende a reproduzir o padrão mais comum da web, e o padrão mais comum, como mostram os números acima, é inacessível. Discutimos esse limite em onde o vibe coding cabe e onde não cabe dentro da empresa.
O que a lei brasileira exige do site da empresa?
A obrigação não é recomendação de boas práticas nem exigência só para órgão público. Ela está no Estatuto da Pessoa com Deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão, desde 2015, e alcança qualquer empresa com sede ou representação comercial no país.
Três pontos do texto costumam passar despercebidos. O primeiro é o alcance: não há recorte por porte nem por setor, basta ter sede ou representação comercial no Brasil. O segundo é a referência técnica: a lei não inventa critério próprio, remete às diretrizes adotadas internacionalmente, e a diretriz internacional de referência é a WCAG, do W3C.
O terceiro é o símbolo. O § 1º exige o símbolo de acessibilidade em destaque, e muita empresa cumpre só essa parte, com um ícone no canto da tela. O símbolo é exigência, mas não é acessibilidade: ele sinaliza um compromisso que o resto do site precisa sustentar.
Existe multa para site sem acessibilidade?
Não no texto do art. 63. A própria Câmara registrou essa lacuna quando uma de suas comissões analisou um projeto para criar a punição.
Em 1º de julho de 2022, a Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência aprovou o PL 4238/21, que prevê multa diária considerando o faturamento da empresa e suspensão do site por prazo determinado para quem descumprir a acessibilidade exigida pelo Estatuto. Na ocasião, o relator observou que o art. 63 apenas torna a acessibilidade obrigatória, sem prever sanção em caso de descumprimento.
A leitura correta, então, é esta: a obrigação está na lei desde 2015; a multa específica é proposta, aprovada em comissão, e não regra em vigor. Quem escreve que "a lei prevê multa" está adiantando um projeto.
Isso não transforma o tema em opcional. Obrigação legal sem sanção própria continua sendo obrigação, a empresa continua exposta a questionamento, e o custo de corrigir cresce a cada nova página publicada com os mesmos erros. A decisão sensata é tratar o assunto como requisito do site, e não esperar o projeto andar.
O que é a WCAG e qual nível a empresa deve mirar?
A WCAG (Web Content Accessibility Guidelines) é o conjunto de diretrizes do W3C, o consórcio que define os padrões da web. É a ela que as "diretrizes adotadas internacionalmente" da lei brasileira remetem na prática, e é ela que ferramentas como o WAVE usam para apontar falhas.
A versão atual é a WCAG 2.2, recomendação do W3C publicada em 12 de dezembro de 2024. O W3C aconselha usá-la e incentiva adotar a versão mais recente ao criar ou atualizar políticas de acessibilidade. Conteúdo conforme à 2.2 também é conforme às versões 2.0 e 2.1, então não há conflito entre elas.
| Nível | O que representa | Como tratar no projeto |
|---|---|---|
| A | o mínimo: sem ele, parte do público simplesmente não consegue usar a página | não é meta, é ponto de partida obrigatório |
| AA | o nível intermediário, que inclui contraste mínimo de texto e navegação consistente | o alvo sensato para o site institucional e o e-commerce |
| AAA | o nível mais alto, com critérios que nem todo conteúdo consegue atender | aplicar onde fizer sentido, sem prometer para o site inteiro |
Níveis de conformidade definidos na WCAG 2.2 (W3C, 2024); recomendação de uso organizada pela Alliance
As seis falhas do relatório estão todas nos níveis A e AA. Ou seja: antes de discutir critério sofisticado, quase todo site ainda tem trabalho no básico.
O que o time corrige sozinho e o que pede desenvolvedor?
A divisão honesta economiza orçamento. Parte das falhas se resolve com processo de conteúdo e design, sem abrir o código. Outra parte mora nos componentes do site e precisa de quem os construiu.
| Falha | Quem resolve | Como conferir |
|---|---|---|
| Baixo contraste | design, ao revisar a paleta e os estilos de texto | verificador de contraste nas combinações de texto e fundo |
| Imagem sem alt | conteúdo, no momento da publicação | revisar o campo de texto alternativo no gerenciador do site |
| Formulário sem rótulo | ajuste pontual, às vezes no próprio construtor de formulário | navegar pelo formulário com leitor de tela |
| Idioma não declarado | ajuste pontual de uma linha no código | conferir o atributo lang na abertura do HTML |
| Link vazio | desenvolvimento, nos ícones e componentes | ferramenta automática e navegação por Tab |
| Botão vazio | desenvolvimento, nos controles de menu, pop-up e carrossel | ferramenta automática e navegação por Tab |
Classificação da Alliance a partir dos tipos de falha do WebAIM Million 2026
Uma ressalva importante: ferramenta automática encontra as falhas desta tabela, mas não julga tudo. Ela sabe se a imagem tem alt, não se o alt descreve a imagem. Sabe se o botão tem nome, não se a ordem de navegação faz sentido. Por isso a correção das seis falhas é o começo, e a auditoria manual com teclado e leitor de tela é o que fecha o trabalho.
É também por isso que um ícone flutuante de acessibilidade não substitui a correção. As seis falhas estão no conteúdo e no código da página, e continuam lá depois que o ícone é instalado.
Quais erros aparecem quando a empresa decide corrigir?
- Instalar um ícone ou widget e considerar o assunto resolvido, sem mexer nas seis falhas que estão no código e no conteúdo.
- Tratar o símbolo de acessibilidade como o cumprimento inteiro da lei, quando ele é só o § 1º do art. 63.
- Corrigir a home page e esquecer as páginas que mais convertem: formulário de contato, orçamento, checkout.
- Escrever alt genérico em todas as imagens ("imagem", "banner", o nome da empresa), o que zera o erro na ferramenta e mantém o problema para quem ouve a página.
- Espalhar atributos ARIA sem conhecer o que fazem, justamente o padrão associado a mais erros no relatório de 2026.
- Fazer uma correção pontual e não colocar acessibilidade no processo de publicação, de modo que o próximo banner reabre o problema.
O último item é o que mais pesa no longo prazo. Site não é peça que fica pronta: ele recebe conteúdo toda semana. Se o critério de acessibilidade não entra no fluxo de quem publica e de quem desenvolve, a correção de hoje dura até a próxima campanha.
Como medir se o site melhorou?
- Escolha as páginas que importam: home, páginas de serviço mais visitadas, formulários e, se houver, o fluxo de compra.
- Rode uma ferramenta automática, como o WAVE da própria WebAIM, e registre o número de erros por página como linha de base.
- Corrija primeiro as seis falhas, na ordem de impacto: formulários e botões do caminho de conversão antes de páginas institucionais.
- Repita a medição nas mesmas páginas e compare com a linha de base, não com a média do mercado.
- Faça o teste com teclado e, se possível, com leitor de tela nos fluxos principais, porque é o que a ferramenta automática não cobre.
- Inclua a verificação no processo: toda página nova ou redesenho passa pelo mesmo teste antes de ir ao ar.
Acessibilidade e desempenho andam juntos na mesma revisão técnica, e costumam ser esquecidos pelo mesmo motivo: não aparecem na tela de quem aprova o site. É um tema que tratamos também em o que muda quando a performance entra no escopo do site.
Por onde começar hoje
- Faça o teste do Tab na home e no formulário de contato. Anote onde o foco some ou para em algo sem nome.
- Rode uma verificação automática nas cinco páginas mais importantes e guarde o resultado como ponto de partida.
- Peça ao time de conteúdo que revise o texto alternativo das imagens que carregam informação.
- Revise a paleta com critério de contraste antes do próximo material de campanha.
- Leve ao desenvolvimento a lista de links e botões sem nome, o rótulo dos formulários e o idioma da página.
- Coloque acessibilidade no escopo do próximo projeto de site e no checklist de publicação, para não refazer o trabalho a cada página nova.
A correção das seis falhas cabe num projeto enxuto, e a auditoria completa é o passo seguinte. Quando o objetivo for construir ou revisar o site com acessibilidade no escopo desde o início, é disso que trata o trabalho de desenvolvimento web da Alliance. E se a dúvida ainda for onde o site entra no quadro geral da comunicação, o diagnóstico gratuito de marketing avalia presença digital, conteúdo e tecnologia junto com as outras dimensões.

