A atualização da NR-1 chegou às empresas como assunto de segurança do trabalho e de jurídico: o que mudou, qual o prazo, o que entra no PGR. Tudo isso importa. Mas há uma parte da norma que quase ninguém lê com atenção, e ela não é técnica: é de comunicação.
O texto obriga a empresa a explicar o processo ao time, a ouvir o que as pessoas percebem e a devolver o resultado com as medidas que vão ser tomadas. Este guia mostra o que a norma diz sobre isso, o que comunicar em cada momento, quem deve falar e quais erros fazem o processo perder a confiança logo na largada. Não é parecer jurídico: é o lado da comunicação interna que a obrigação criou.
O que a NR-1 diz sobre riscos psicossociais?
A NR-1 é a norma que trata das disposições gerais de segurança e saúde no trabalho e do gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO), que se materializa no Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR. A Portaria MTE nº 1.419/2024 reescreveu o capítulo 1.5 e deixou explícito que esse gerenciamento inclui os fatores psicossociais.
O detalhe que muda a leitura está no final da frase: relacionados ao trabalho. O guia do MTE insiste nisso. A empresa não vai investigar a vida pessoal de ninguém nem medir a saúde mental de cada pessoa; vai olhar para a organização do trabalho, isto é, para a concepção, a gestão e as condições em que o trabalho acontece.
O próprio guia lembra que a redação anterior já mandava gerenciar todos os riscos ocupacionais, o que incluía os psicossociais. A nova redação deu ênfase a essa obrigação e amarrou o tema à NR-17, a norma de ergonomia. É por isso que a avaliação passa pela avaliação ergonômica preliminar (AEP) e, quando necessário, pela análise ergonômica do trabalho (AET).
Desde quando a nova redação da NR-1 vale?
A Portaria nº 1.419 é de agosto de 2024, e o guia do MTE foi escrito com a previsão de vigência a partir de 26 de maio de 2025. Essa data não se manteve: o ministério adiou o início da vigência por um ano.
Em outubro de 2026, portanto, a nova redação já está em vigor. Para quem ainda não fez a avaliação, isso muda a natureza da comunicação: não dá mais para apresentar o processo como preparação para algo que vem aí. É uma obrigação vigente, e o time tem direito de saber em que pé a empresa está. Como prazos de norma podem ser alterados por nova portaria, vale conferir a página do MTE antes de fixar datas em comunicados.
Quais são os riscos psicossociais listados pelo MTE?
O guia do MTE traz uma listagem exemplificativa de 13 fatores, cada um com a possível consequência para a saúde. Não é lista fechada: a empresa pode encontrar outros, ou não encontrar nenhum, e o guia diz com todas as letras que nem toda organização terá fator psicossocial presente. O que a lista faz é dar vocabulário comum para começar.
| Fator de risco (perigo) | Possível consequência | Ligação com comunicação |
|---|---|---|
| Assédio de qualquer natureza no trabalho | Transtorno mental | Indireta: depende de canal seguro para relato |
| Má gestão de mudanças organizacionais | Transtorno mental; DORT | Direta: mudança mal explicada |
| Baixa clareza de papel/função | Transtorno mental | Direta: o que se espera de cada um |
| Baixas recompensas e reconhecimento | Transtorno mental | Indireta: reconhecimento também é dito |
| Falta de suporte/apoio no trabalho | Transtorno mental | Indireta: acesso ao gestor |
| Baixo controle no trabalho/falta de autonomia | Transtorno mental; DORT | — |
| Baixa justiça organizacional | Transtorno mental | Indireta: critérios que ninguém explicou |
| Eventos violentos ou traumáticos | Transtorno mental | — |
| Baixa demanda no trabalho (subcarga) | Transtorno mental | — |
| Excesso de demandas no trabalho (sobrecarga) | Transtorno mental; DORT | Indireta: prioridades mal comunicadas |
| Maus relacionamentos no local de trabalho | Transtorno mental | Indireta |
| Trabalho em condições de difícil comunicação | Transtorno mental | Direta: o próprio nome |
| Trabalho remoto e isolado | Transtorno mental; fadiga | Indireta: rituais de contato |
Duas primeiras colunas: MTE, Guia de informações sobre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho (2025). Terceira coluna: leitura da Alliance Comunicação.
A terceira coluna é interpretação nossa, não do ministério, e está aí para mostrar um ponto: três dos 13 fatores são falhas de comunicação em estado puro. Outros dependem dela para serem prevenidos. A comunicação interna aparece duas vezes na NR-1: como obrigação do processo e como causa possível do risco.
O que o item 1.5.3.3 obriga a empresa a comunicar?
Este é o trecho que os primeiros resultados do Google sobre o tema costumam pular. Ele fica dentro das responsabilidades da organização, ao lado da obrigação de identificar perigos e avaliar riscos, e trata diretamente da relação com o time.
Repare nos verbos: proporcionar noções, consultar, comunicar. São três tarefas de comunicação, com públicos e momentos diferentes. E elas não estão sozinhas na norma. O subitem 1.5.5.1.3 diz que a implantação de medidas de prevenção deve ser acompanhada de informação aos trabalhadores sobre os procedimentos e as limitações das medidas. O 1.5.7.2.1 manda manter os documentos do PGR sempre disponíveis aos trabalhadores interessados. E o 1.5.4.4.6 prevê revisão da avaliação após solicitação justificada dos trabalhadores ou da CIPA.
| Dispositivo da NR-1 | O que exige | Tarefa de comunicação |
|---|---|---|
| 1.5.3.3, alínea a | Participação, com noções básicas de GRO | Explicar o processo em linguagem simples |
| 1.5.3.3, alínea b | Consulta sobre a percepção de riscos | Abrir canal de escuta (pode incluir a CIPA) |
| 1.5.3.3, alínea c | Comunicar riscos do inventário e medidas do plano | Devolutiva do resultado |
| 1.5.5.1.3 | Informar procedimentos e limitações das medidas | Explicar cada medida quando ela entra |
| 1.5.7.2.1 | Documentos do PGR disponíveis aos interessados | Dizer onde e como consultar |
| 1.5.4.4.6, alínea f | Revisão após pedido justificado dos trabalhadores ou da CIPA | Mostrar como pedir revisão |
NR-1, texto atualizado com a Portaria MTE nº 1.419/2024. Coluna da direita: leitura da Alliance Comunicação.
Por que a comunicação decide o resultado da avaliação?
Porque a avaliação de riscos psicossociais depende do que as pessoas aceitam contar. Um questionário respondido com medo ou com desconfiança devolve um retrato bonito e falso. O guia do MTE aponta duas condições para qualquer método escolhido: criar um ambiente de confiança para dialogar com o trabalhador e, se houver questionário, manter e garantir o anonimato.
Confiança não se decreta num e-mail. Ela se constrói com o que a empresa diz antes, com a coerência do que pergunta e, principalmente, com o que faz depois. Se a última pesquisa interna terminou sem devolutiva, o time já aprendeu que responder não muda nada, e vai responder de acordo. É o mesmo fenômeno que acontece com a pesquisa de clima que não teve devolutiva: a próxima rodada paga a conta da anterior.
Há também o dado de saúde que o guia do MTE cita na introdução: considerando os acidentes de trabalho de 2022, os transtornos ansiosos, os episódios depressivos e as reações ao estresse grave somados representaram 8,35% dos adoecimentos ocupacionais, atrás apenas da dorsalgia. É um número que ajuda a explicar ao time por que o assunto chegou à norma, sem tom de alarme.
Quais são os três momentos de comunicação com o time?
Juntando o item 1.5.3.3 e os passos preliminares do guia do MTE, o processo pede comunicação em três momentos. Cada um tem uma pergunta do time para responder.
1. Antes da avaliação: o que vai acontecer e por quê
Na prática, o aviso prévio precisa responder cinco perguntas: o que é, por que agora, como será feito (questionário, oficina, observação ou combinação deles), quem terá acesso às respostas e o que acontece depois. A resposta mais importante é a que o guia dá na pergunta frequente nº 6: o objetivo não é avaliar a saúde mental de cada trabalhador, mas as condições em que o trabalho é feito. Dita com clareza, essa frase desarma metade da resistência.
2. Na consulta: perguntar sobre o trabalho, não sobre a pessoa
A consulta é o momento da alínea b. Ela pode usar as manifestações da CIPA, a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio, quando houver. A comunicação aqui é de enquadramento: lembrar que as perguntas tratam de carga, prazos, clareza de papel, apoio, mudanças, e não de diagnóstico individual.
É também onde entra a alínea a, as noções básicas de gerenciamento de riscos. Ninguém precisa sair especialista, mas as pessoas devem entender a diferença entre perigo e risco, o que é o inventário e o que é o plano de ação. Sem isso, a devolutiva vai parecer um documento técnico caído do céu.
3. Na devolutiva: o que foi encontrado e o que vai mudar
A alínea c é a mais objetiva da norma: comunicar os riscos consolidados no inventário e as medidas previstas no plano de ação. E o plano tem forma definida, porque o subitem 1.5.5.2.2 pede cronograma com responsáveis, formas de acompanhamento e aferição de resultados. A devolutiva boa traduz esse documento em linguagem de gente, sem esconder o que não ficou bom.
O que escrever no comunicado da devolutiva?
A devolutiva costuma ser feita em duas camadas: uma conversa conduzida pelo gestor com a equipe e um comunicado escrito que fica de referência. O comunicado segue a ordem das dúvidas, e não a ordem do relatório técnico.
- O que foi avaliado: setores, atividades, método e participação. Número de participantes dá credibilidade; nome de participante, nunca.
- O que foi encontrado: os fatores presentes, por grupo de trabalho, com a mesma linguagem usada na consulta.
- O que vai mudar: as medidas do plano, com a indicação de quais mexem na organização do trabalho. O guia do MTE recomenda dar preferência a essas, e não a intervenções só pessoais ou comportamentais.
- Quando e quem: prazos e responsáveis, como pede o plano de ação. Medida sem dono é a primeira a ser esquecida.
- Como acompanhar: onde consultar o PGR, a quem recorrer e como pedir revisão.
Escrever isso de um jeito que seja lido exige as mesmas regras de qualquer comunicado interno que se entende em 60 segundos: assunto que diz o que é, primeira frase com a notícia e detalhes depois. Um comunicado de NR-1 que começa com três parágrafos de contexto legal perde o leitor antes do bloco que interessa.
Quem deve falar: gestor, SST, RH ou CIPA?
O guia do MTE pede, no 2º passo preliminar, que a organização envolva os profissionais de SST, os níveis gerenciais, a alta administração, os líderes de equipe e todos os trabalhadores. No 3º passo, pede que atribua responsabilidades. Traduzindo para comunicação: cada mensagem precisa ter um porta-voz definido, e não pode ficar tudo no e-mail do RH.
| Mensagem | Quem fala melhor | Por quê |
|---|---|---|
| Por que a empresa está fazendo isso | Alta liderança | Sinaliza que é compromisso, não formalidade |
| Como funciona e o que é sigiloso | SST ou consultoria responsável | Tem a autoridade técnica sobre o método |
| Convite e conversa com a equipe | Gestor direto | É quem o time ouve e quem vai executar parte do plano |
| Percepção dos trabalhadores | CIPA, quando houver | A norma prevê o uso das manifestações da comissão |
| Devolutiva escrita e canais | Comunicação interna com RH e SST | Garante linguagem clara e registro |
Sugestão da Alliance Comunicação a partir dos passos preliminares do guia do MTE (2025).
O gestor merece atenção especial. Vários fatores da lista do MTE passam pela forma como ele conduz a equipe, de clareza de papel a apoio no trabalho. Pedir a ele que apresente o processo sem preparo é colocá-lo numa posição desconfortável. Um roteiro curto, com as perguntas mais prováveis e as respostas que a empresa já validou, resolve boa parte disso.
Quais os erros mais comuns na comunicação da NR-1?
- Aplicar o questionário de surpresa. Sem aviso prévio, a pergunta que circula no corredor é “para que querem saber isso?”, e a resposta imaginada é sempre pior que a real.
- Prometer anonimato sem garanti-lo. Em equipe de quatro pessoas, um recorte por setor e cargo identifica quem respondeu. O time percebe, e a próxima rodada vem em branco.
- Tratar como avaliação de saúde mental individual. O guia do MTE é explícito que não é. Comunicação que fala em “cuidar da sua mente” confunde o objetivo e assusta.
- Encerrar sem devolutiva. É descumprir a alínea c e, de quebra, ensinar ao time que participar não muda nada.
- Devolver só o que é bonito. Esconder um fator encontrado é a forma mais rápida de perder a credibilidade que o processo tentou construir.
- Transformar o assunto em campanha de bem-estar. Palestra e aplicativo de meditação não substituem medida que mexe na organização do trabalho, que é o que o guia recomenda priorizar.
A NR-1 de riscos psicossociais vale para todas as empresas?
O gerenciamento de riscos vale para toda organização com empregados, mas a NR-1 tem tratamento diferenciado no item 1.8. O microempreendedor individual (MEI) está dispensado de elaborar o PGR. Microempresas e empresas de pequeno porte de graus de risco 1 e 2 podem ser dispensadas do PGR se cumprirem as condições do item 1.8.4, como não identificar exposições a agentes físicos, químicos e biológicos e declarar as informações digitais exigidas.
A dispensa do documento não é dispensa do tema. O guia do MTE afirma que a avaliação ergonômica preliminar, incluindo os fatores psicossociais, é obrigatória para todas as empresas, inclusive as dispensadas de PGR. E o item 1.8.4.1 manda divulgar aos trabalhadores as informações de SST declaradas. Para a empresa pequena, o guia sugere que oficina ou observação da atividade podem funcionar melhor que um questionário extenso, o que torna a comunicação mais próxima e mais simples.
O enquadramento exato de cada empresa é decisão de quem responde pela segurança e saúde no trabalho e, se for o caso, do jurídico. O que vale para todas é a lógica: se houve avaliação, o time precisa saber antes, ser ouvido durante e receber o resultado depois.
Como saber se a comunicação funcionou?
A norma pede que o desempenho das medidas de prevenção seja acompanhado. A comunicação também pode ser, com indicadores simples, sem software caro:
- Participação na consulta: percentual de pessoas que responderam ou participaram das oficinas, por área. Área com adesão muito abaixo das outras é sinal de desconfiança local.
- Compreensão do objetivo: uma pergunta no próprio instrumento, como “você entendeu para que serve esta avaliação?”, mostra se o aviso prévio funcionou.
- Alcance da devolutiva: quantas equipes tiveram a conversa com o gestor no prazo combinado, e não só quantos abriram o e-mail.
- Medidas comunicadas no prazo: cada medida do plano que entra em vigor foi acompanhada da informação prevista no subitem 1.5.5.1.3?
- Uso do canal de revisão: pedidos de revisão e dúvidas recebidos. Zero pedidos pode ser sinal de que ninguém sabe que o canal existe.
Esses números conversam com o que se mede em qualquer programa de comunicação interna, e o artigo sobre o que medir na comunicação interna ajuda a montar o painel sem inflar o trabalho.
Por onde começar hoje
- Descubra em que etapa a empresa está: avaliação feita, em andamento ou não iniciada. A comunicação muda para cada caso.
- Defina os porta-vozes de cada mensagem e prepare um roteiro curto para os gestores.
- Escreva o aviso prévio respondendo às cinco perguntas: o que é, por que agora, como, quem vê as respostas e o que acontece depois.
- Combine com SST como o anonimato será garantido nos recortes menores e diga isso ao time com a mesma clareza.
- Planeje a devolutiva antes de abrir a consulta, com data e formato definidos.
- Publique onde o PGR pode ser consultado e como pedir revisão.
- A cada medida do plano que entrar em vigor, comunique o que muda, até onde ela vai e quem responde.
A NR-1 transformou em obrigação algo que a boa gestão já fazia: avisar antes, ouvir de verdade e contar o que foi decidido. Se a empresa quer ajuda para estruturar isso como processo, e não como comunicado avulso, o time de comunicação interna da Alliance trabalha junto com RH e SST. E se a dúvida for onde a comunicação da empresa está mais frágil de modo geral, o diagnóstico gratuito de marketing e comunicação mostra as prioridades na ordem certa.

